O BLOG DO ROBERTO

Futebol e História.

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Terra Blog

Arquivo de: Setembro 2007, 28

28.09.07

CARTA AOS BOTAFOGUENSES

 


Caros amigos botafoguenses,



Nós já passamos por isso.

Foi um pouco diferente.

Mas a ordem dos fatores não altera o produto.

Vai doer. Vocês vão deixar de ir a campo durante algum tempo.

E depois irão preencher as arquibancadas outra vez.

Porque as derrotas passam.

Mas sempre fica a paixão. Irracional.

Todos os times já viveram um dia assim.

O Corinthians nos anos 60.

O Fluminense na terceira divisão.

O Grêmio contra o Estudiantes de la Plata.

O Internacional no Gauchão de 62.

E algumas seleções também.

Como a Argentina contra a Colômbia: 5x0.

O Brasil contra Zidane.

Cuca já foi embora. CALMA!

Nada de homicídios.

Fica a vergonha de sair de casa. De chegar no trabalho.

O riso dos vascaínos, dos flamenguistas, dos tricolores.

Porém nada melhor nessa vida que uma batalha depois da outra.

Escutem a voz da experiência.

Um grande abraço,



Dos seus amigos alvirrubros!

NÁUTICO E ATLÉTICO 1973

 

            

 

30 de agosto de 1973.

14.133 pagantes para o primeiro Náutico e Atlético-PR no Arruda.

A primeira participação do Furacão em Brasileiros.

Na véspera o Esporte perdera do América-MG em Belo Horizonte por 4x1.

Restava ao Timbu um resultado positivo.

O Timbu que ainda insistia em deixar o gênio de Jorge Mendonça no banco.

Coisa de quem não tem o que fazer.

O Náutico alinha Luís Fernando; Borges, Djalma Sales, Sidclei e Franklin; Divino e Vasconcelos; Betinho, Adilson, Paraguaio (Jorge Mendonça) e Elói.

O Atlético-PR forma com Gainete; Vanderlei, Di, Almeida e Júlio; Sergio Lopes e Didi; Buião, Taquito, Caio e Nilson (Sicupira).

Também é difícil entender Sicupira no banco. Melhor pra gente.

No primeiro tempo o domínio alvirrubro é total. Aos 13' Elói fuzila o goleiro Gainete que manda a córner.

Aos 18' Didi arrisca e Luís Fernando 'bate-roupa' como se dizia na época. Borges, a grande figura do jogo, manda para escanteio.

22' e uma tabela entre Betinho e Vasconcelos termina com Paraguaio cara a cara com o gol. Gainete recorda-se dos tempos no Internacional e segura firme.

Com 25' não tem jeito. Borges domina no peito, invade a área e marca: 1x0.

O Náutico continua pressionando no segundo tempo e aos 2' Paraguaio lança Vasconcelos. Só diante do gol Vasconcelos faz o mais difícil. Perde o gol.

10' e Paquito enfim dá o ar de sua graça. A zaga salva.

25' E Franklin salva a única chance real de gol do Atlético num chute de Sergio Lopes.

O Náutico devolve o placar da partida entre as duas equipes em 68 no Robertão.

E aos poucos monta a equipe que vai impedir o Hexa do Santa Cruz em 1974.

HOJE NO FUTEBOL

 


Hoje é dia de Josef Bozsik.

Bozsik que iniciou a carreira no Kispest.

E brilhou no Honved e na Seleção da Hungria dos anos 50.

Bozsik que permaneceu como membro do Parlamento mesmo após a invasão do seu país pelos soviéticos em 1956.

Esqueçamos o político.

Saudemos o craque.

    

               

   Bozsik e Nilton Santos sendo expulsos na Copa de 54

O REAL DE PELÉ

 

           

 

1953. O olheiro telefona para Santiago Bernabéu e avisa: “Esqueça Di Stefano e Nestor Rossi! Eu descobri um gênio!”

A estática, a ligação entrecortada, a dúvida. Como cancelar o negócio com ‘La saeta rubia’? Como cancelar o negócio com o homem que comandara o Millionarios ali mesmo em Madri naquele humilhante 4x2?

“Ele tem 12 anos!”

Agora Santiago tem absoluta certeza que seu amigo e olheiro enlouquecera no calor dos trópicos. Ligar do Brasil pra dizer que um niño de 12 anos poderia ser melhor que Di Stefano.

“Mas tem um problema.”

Bem, agora ele ia dizer que era uma brincadeira. Quando Santiago se prepara para demitir o seu homem de confiança...

“A mãe não deixa sair de Bauru. E ele é negro como o diamante.”

Santiago Bernabéu foi jogador de futebol. E quando pensou que sabia tudo sobre ser um atacante conheceu Leônidas. Anos antes o uruguaio Andrade já desfilara seu talento pela Europa.

Santiago era um homem de negócios. Um apaixonado pelo Real, mas um homem de negócios. Sempre se dizia que não contratava futuros genros, porém jogadores de futebol.

Desligou o telefone. Durante anos colocara pessoas em todo o mundo procurando uma resposta para seus sonhos. E a resposta tinha vindo ao seu encontro ali mesmo em Madri quando o Millionarios vencera o Real Madrid duas vezes.

Ele queria Di Stefano e Rossi. Mas o River Plate era o dono do passe. A liga pirata estava chegando ao fim na Colômbia.

Nestor Rossi disse não.

Aquilo deixou Santiago Bernabéu incrédulo.

Di Stefano assinou com o Barcelona.

Enquanto isso uma carta chegava do Brasil com uma foto do menino negro. Pobre e magro. Um engraxate, dizia carta. Mas havia algo naquele olhar. Algo bem maior que o tempo, bem maior que o simples olhar de uma criança. E Santiago lembrou dos seus dias de criança quando sonhava jogar no Real Madrid.

Ele também possuía aquele olhar.

Por debaixo dos panos Santiago Bernabéu iniciara uma tramóia visando seqüestrar Di Stefano. Se o argentino jogasse mal no Barcelona talvez fosse renegado com uma farsa.

O presidente tinha as pesetas. Tinha Franco. Tinha o poder. Ninguém sabia, mas um dos seus homens já tentava seduzir até Ferenc Puskas.

A ligação demorou algumas horas para ser completada. Ele confiava cegamente em Sanchez. Ambos combateram na selvagem Guerra Civil. Talvez ele não estivesse louco afinal.

E afinal, a vida deve ter emoção!

Alguns milhares de dólares entraram na conta do pequeno Bauru Atlético Clube.

Dondinho e Maria Celeste viajaram pela primeira vez de avião.

O Santos ficou Santos mesmo. Nunca foi realmente páreo para o trio de ferro.

Di Stefano seguiu carreira na companhia de Evaristo, Kocsis e Czibor. Ganhou alguns títulos. Nada de tão especial.

Pelo menos nada que pudesse se comparar ao reinado do ataque formado por Canário, Kopa, Puskas, Pelé e Gento.

A França agradecida foi campeã mundial em 1958 e 1962.

O Brasil permaneceu com seu complexo de vira-latas.

Já que tempos depois os italianos da Juventus levaram Mané Garrincha. Com Elza Soares e tudo.

MAURO E GABY

 

O filme brasileiro ‘O ano em que meus pais saíram de férias’ foi escolhido para representar o Brasil no Oscar.

Vinte e um anos depois do filme argentino ‘La Historia Oficial’, o único filme latino americano a ganhar a estatueta de Hollywood.

Ambos retratam crianças, Mauro e Gaby.

Ambos retratam ditaduras militares.

Ironicamente o filme brasileiro foi escolhido vinte e um anos depois do filme argentino.

Como vinte e um foram nossos anos de repressão.

Mas ditadura e futebol é coisa antiga.

O futebol, e o esporte em geral, muitas vezes andou de braços dados com os regimes de força.

E muitos governos imaginaram se aproveitar dos gols para silenciar os porões.

Alguns conseguiram. Outros nem tanto.

A máquina nazista aproveitou-se do Anschluss e mesclou os jogadores da Alemanha e da Áustria num só time para a Copa de 1938.

Alemanha e Áustria que eram respectivamente terceiro e quarto colocado da Copa de 34.

Esqueceram de avisar a Suíça que derrotou a Nova Ordem: 4x2.

Benito Mussolini tornou-se o primeiro ditador a ganhar uma Copa do Mundo. Aliás, duas.

O que não o impediu de morrer dependurado num gancho de açougue.

Em 1954 os húngaros iriam provar que a ditadura comunista era imbatível.

Desta vez esqueram de avisar os alemães: 3x2.

Dezesseis anos depois ocorreu a tentativa mais bem sucedida de associar pátria com chuteiras.

Noventa milhões em ação.

Como torcer contra o milagre e Pelé?

Não teve jeito.

E muitos pais saíram de férias para nunca mais voltar.

Quem sabe nas mesmas férias dos argentinos em 1978.

Por que em 1978 Videla suou frio quando Resenbrink acertou a trave portenha no último minuto.

Resenbrink não tinha sido avisado e se a bola entrasse só Deus sabe como terminaria aquele jogo.

Mas a Argentina também levou a taça.

Não teve jeito.

Algumas pessoas dirão que é tudo passado.

Mas a Copa do Mundo de futebol feminino está ocorrendo na China.

E quando a tocha olímpica for acesa no dia 8 de agosto de 2008 em Pequim, os ecos da ‘Marcha da Homenagem’ de Wagner poderão ser ouvidos nas arquibancadas.

Como no dia 1 de agosto de 1936 em Berlim o mundo cala ante o poderio militar e econômico de um país que proíbe a liberdade de imprensa, silencia seus dissidentes e impõe a justiça pelas próprias mãos.

No papel da cineasta Leni Riefenstahl, os chineses contratam Steven Spielberg.

O famoso diretor americano parece esquecer suas origens, Schindler e os seis milhões de judeus mortos na Segunda Guerra.

Alguns dirão que na Tribuna de Honra não estará sentado Adolf Hitler, que o crescimento do comércio mundial justifica a amaurose fugaz, que os comunistas não são nazistas, que a foice não é a suástica, que Auschwitz é passado, que Jesse Owens não está nas pistas.

Porém mulheres são esterilizadas à força, a pena de morte impera, jornalistas são presos, igrejas são fechadas e a tortura e as detenções arbitrárias são política de estado.

Hoje meus amigos, Mauro e Gaby falam mandarim.