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Futebol e História.

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29.09.07

SOBRE SÁNDOR

 

COMENTÁRIOS SOBRE 'SÁNDOR'
SÃO PAULO - O jornalista Marcelo Duarte, o poeta Moacir Amâncio, a professora universitária Berta Waldman e o publicitário André Laurentino, todos escritores e ativos defensores da boa literatura, reservaram a manhã da última quarta-feira para uma tarefa muito especial. Reuniram-se na sede do Estadão para uma difícil missão: decidir, entre os 1.022 inscritos, quais os dez melhores contos sobre futebol para publicação em edição especial, coordenada pelo Caderno 2. A data da publicação dos contos selecionados já foi determinada: sábado que vem, dia 3, seis dias antes do início da Copa do Mundo.
O conto Sándor, de Roberto Vieira da Silva, morador de Camaragibe, em Pernambuco, entrou na lista por sua atmosfera absorvente, seu recorte inusitado da realidade, segundo os jurados.
"Gostei dos textos mais elaborados, que fizeram intervenções históricas. Assim, acho dignos de destaque os seguintes: Sándor (de fato, muito comovente, acho que o melhor)" RICARDO LÍSIAS, escritor, autor de, entre outros, Duas Praças .
"passando por Sándor, de Roberto Vieira da Silva, a meu ver, o melhor dos textos, com domínio de linguagem digno de mérito ..." WILSON BUENO, escritor, autor, entre outros livros, da reunião de fábulas Cachorros do Céu .
"Onze contos selecionados, três ao menos se impõem pela alta qualidade, e aqui não vai nenhuma condescendência do crítico: alta mesmo. Sándor, de Roberto Vieira da Silva, que recupera o trecho de um hipótetico diário do jogador húngaro que perdeu a copa de 54 para a Alemanha, e que depois se suicidou, ombreia com algumas das mais ambiciosas histórias curtas de Rubem Fonseca." PAULO BENTANCUR, escritor e crítico literário .

A VIOLÊNCIA NO CLÁSSICO

 

O futebol é uma carnificina. Um circo romano.

Futebol-arte é uma exceção. Balé num baile funk.

Infelizmente, diria eu.

Mas como posso julgar um soldado em fogo cruzado?

Como, se a multidão exige sangue, suor e lágrimas?

Na antiga Florença os jogadores se enfrentavam no gioco cálcio.

Era uma espécie de vale-tudo. Podia até matar o adversário.

E muitas vezes era o que realmente acontecia.

Com a evolução da sociedade o jogo também evoluiu, e o homem reservou as carnificinas para o teatro da guerra.

Em 1863 na Freemason's Tavern foram definidas as 17 regras do futebol.

E o jogo passou alguns anos sendo disputado num clima de cavalheirismo. Embora por vezes terminasse em pancadaria.

Então em 1868 surgiu o juiz. Autoridade máxima dentro das quatro linhas.

Aliás, o juiz é mais antigo que o travessão que só foi criado 10 anos depois.

O pau quebrava do mesmo jeito. Por vezes batiam até no juiz enquanto ‘homenageavam’ a sua genitora.

Ser juiz tornou-se tão perigoso quanto sair para um mergulho com Houdini.

Lembrando a primeira frase: O futebol é uma carnificina.

Vinte e dois homens em campo e uma multidão selvagem exigindo a vitória.

Não faz muito tempo o homem habitava as cavernas. Comia com as mãos, namorava com a clava.

Quando indicaram o juiz de Náutico e Sport qualquer pessoa em seu juízo normal pensaria:

‘O jogo não termina! O jogo não termina!’

Porque aqueles vinte e dois homens quando vestem uniformes e se enfrentam no circo romano ficam cegos. De raiva.

E feras enjauladas podem sentir o medo a distancia.

O medo de usar o chicote.

E onde estava o chicote do domador?

No bolso.

Como uma classe de adolescentes com um professor sem autoridade.

Sem autoridade eles vão deitar e rolar.

Não vejo o juiz como culpado.

Culpado foi quem indicou o árbitro.

Era um jogo para um Mario Vianna. Um Sherlock. Um batalhão de choque. Os fuzileiros navais.

Como na Batalha de Santiago em 1962, quando Chile e Itália se enfrentaram com espadas e morteiros, só uma pessoa inocente poderia imaginar que no final do espetáculo não haveria mortos e feridos.

No circo romano, gladiadores e leões são atores.

Nero é quem deseja ver o circo pegar fogo.

ACREDITE, SE QUISER!

 

Recente pesquisa da AMB mostra que 11% dos brasileiros confiam nos políticos e 16% nos partidos políticos.

Algo assim como 20 milhões de pessoas.

Fiquei deveras surpreso.

Puxa!

Eu não imaginava que havia tanto político e parente de político no Brasil.

Ou quem sabe, são as mesmas que assinalaram na pesquisa acreditar em mula-sem-cabeça, disco voador e na CPMF sendo usada exclusivamente na área da saúde.

Mas talvez, estatisticamente, 11% dos seres humanos acreditem em qualquer coisa.

BESTA OU BESTIAL?

 


O Brasil é o país do besta e do bestial.

Um sujeito pode ir de um extremo a outro em um segundo. Ou um gol.

Marta nasceu em Dois Riachos. E creio que já era bestial no ventre da sua mãe Tereza, dando voltas em seu cordão umbilical.

Aliás, qualquer brasileiro que finta a vida num campinho de terra batida já é bestial.

Ainda mais sendo mulher num país de burcas invisíveis.

Quando comparei Marta, Fritz Walter e Helmut Rahn, eu comparei três sobreviventes.

Fritz Walter foi pára-quedista na Segunda Guerra.

Saltando pelas noites escuras. Sem saber se iria rever sua família.

Se teria novamente a alegria de correr atrás da bola ou morreria sob o fogo cruzado.

Sobreviveu.

Helmut Rahn era o seu colega de quarto na Copa de 54.

Anos depois, na Copa de 58, ninguém daria um Deutschemark por Rahn. Más companhias e o abuso de álcool pareciam selar seu destino.

Porém o lendário Sepp Herberger o recuperou para o futebol.

Fritz Walter sobreviveu à guerra.

Rahn sobreviveu a si mesmo.

Marta sobreviveu ao Brasil.

Domingo contra a mesma Alemanha de Walter e Rahn, Marta pode novamente ser considerada bestial.

Ou não.

Basta que o Brasil perca.

Alguém fatalmente vai dizer:

‘Eu falei! Não tem fibra, não tem garra. É uma besta!’

Porque no Brasil ou você é besta ou bestial.

O DIA DE HOJE

       

 

Hoje é dia de Wolfgang Overath.

Canhoto.

Do tempo em que se jogava em apenas um clube.

No caso dele no Colônia.

Vice na Copa de 66.

Terceiro lugar em 70.

Campeão em 1974.

Quem viu não esquece.