O BLOG DO ROBERTO

Futebol e História.

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Arquivo de: Setembro 2007, 30

30.09.07

NÁUTICO E ATLÉTICO, 2007

          

              EM 3 VIRA...


Nos tempos de menino era assim: Em 3 vira, em 6 acaba!
Pra quem não viu, assim foi o jogo Náutico e Atlético-PR.
Ah, foi 5x0 e não 6?
E daí?
Podia ser 4, podia ser 8.
O segundo tempo foi o tempo passando até o apito final.
O Náutico assistindo o adversário grogue e sem querer nocautear.
Os sádicos devem estar insatisfeitos.
Em 3 vira, em 6 acaba!
Mas qualquer ser humano sensato preserva o sexto gol para o Palestra Itália.
No que faz muito bem.
Ah, foi 5 e não 6?
E daí?
Podia ser 4.
Podia ser 20!

GRANDES JOGOS, 1

 

                

 

                     FRANÇA 4X1 MÉXICO

13 de julho de 1930

Mas por que iniciar a série de grande jogos com este jogo em particular?

Porque jamais haverá outro jogo como esse.

O primeiro jogo de Copa do Mundo. O primeiro gol.

Estádio Centenário de Montevidéu. Inverno.

O juiz Domingo Lombardi do Uruguai apita.

A França com Thépot; Mattler e Capelle; Villaplance, Chantrel e Pinel; Maschinot, Delfour, Liberati, Laurent e Langiller. O técnico Raoul Caudron.

O México do técnico Juan de Serralonga inicia sua longa e errática participação em copas com Bonfiglio; Rosas e Gutiérrez; Sánchez, Amezcua e Rosas; Mej[ia, López, Ruiz, Carreño e Pérez.

Com 10' o ataque mexicano nocauteia o arqueiro Alexis Thépot. Não seriam permitidas substituições até a Copa de 70 e Chantrel assume o gol.

19' e Lucien Laurent marca o primiero gol em Copas: 1x0 França!

Aos 40' Langiller aumenta e aos 43' é a vez de Maschinot.

No segundo tempo Carreño diminui aos 25' mas Maschinot anota o seu segundo gol dando números definitivos ao marcador.

Como curiosidade o jogador Alex Villaplance foi morto na Segunda Guerra pela Resistência Francesa.

Tinha o mau hábito de espionar para os nazistas...

29.09.07

MASSACRE NOS AFLITOS

 

Previsão meteorológica: Furacão em casa de Timbu vira brisa de verão!

PEDAÇO DE MIM

    

   


No dia 30 de setembro de 1977 uma carta apareceu nos jornais de todo o Brasil.

Apócrifa.



Nova York, 30 de setembro de 1977,

Meu amor,

O que será da minha vida sem você?

A saudade já me invade. Covarde. Completa.

Não sei responder.

Tantos chegaram perto de conquistar meu coração. Leviana. Um dia nos pés do Mestre Ziza. No outro do Mestre Tim.

Em algumas noites eu pertenci ao Diamante Negro. Andamos de bicicleta. Apaixonados.

Mas nada que durasse muito tempo.

Alguns gringos me tratavam com carinho. Puskas galanteador. Di Stefano dono do mundo. Mathews gentleman.

Tudo muito formal. Ninguém me chamava de mulher, como diria Chico Buarque. Que aliás me namora. Amador.

A todos neguei meu amor.

Porque amor é uma coisa complicada. Não depende da vontade da gente. Se sente e só.

Então você me chegou. Menino. Sorrindo. Nunca perguntou meu nome. Sabia.

Nunca me chamou pra dançar. Já saimos dançando quando nos vimos.

Viajamos juntos para a Suécia. Você era de menor, mas ficamos no mesmo quarto. Ainda lembro quando aquele sueco veio com as travas da chuteira me agredir. Você me levantou no ar e sem me deixar cair me fez deslizar até as redes.

E o mundo conheceu você.

E nós fomos conquistar o mundo juntos. On the road.

Lembro do olhar dos portugueses quando você driblou metade do Benfica e só parou quando chegou no Castelo de São Jorge.

Ou daquela vez quando me usou para se vingar do Botafogo de Ribeirão Preto.

Você me escreveu os mais belos versos de amor.

Mil vezes.

Lançou-me pelos ares rumo ao gol. E Viktor saiu correndo, ridículo. Sublime.

Mas você por vezes me enganava.

Um dia eu imaginei que você me mandaria para as redes de Mazurkiewicz.

Ele foi para um lado e eu para o outro e nós nos encontramos no infinito.

Mas seu maior prazer era me exibir nua para os corintianos.

Eles chamavam por mim, desesperados. Eu desfilava no quase. Mas voltava aos seus pés. Sempre.

Quando Vicente e Morais te torturaram eu me neguei a eles que perderam a Copa, perderam as eliminatórias, perderam o rumo.

Lembra quando nós faziamos um ménage a trois com o Coutinho?

Muitas vezes eu não sabia quem era quem.

Então os anos passaram e você me disse adeus em 1971.

Eu te gritei: Fica!

E novamente você me disse adeus em 1974.

Eu te disse: Volta!

Hoje um novo adeus percorre os lábios teus. Um adeus pra sempre.

Um adeus sem volta.

E eu me recolho casta. Para viver dos sonhos.

Sempre apaixonada.



Sempre tua,


A BOLA

O DIA DE HOJE: SÁNDOR

 

                     

 

Hoje 30 de setembro seria o aniversário de Sándor Kocsis.

Em 2006 este meu conto sobre os últimos momentos do artilheiro húngaro foi escolhido para publicação no Estado de S. Paulo.

Que Sándor tenha encontrado a paz.


'SÁNDOR'
POR ROBERTO VIEIRA

“Meus olhos percorrem o velho estádio de Berna. Lama, traves e os malditos alemães fizeram de minha vida um inferno. Por mais que lutássemos sempre havia um pé, um desvio, um grito de guerra nos nossos ouvidos. Aquele não era um jogo qualquer, era a única revanche possível para aqueles ex-soldados perdidos na imensidão de sua Germânia arruinada. Após muitos dias tomei coragem e olhei para um monte de fotografias que Gustav Sebes guardava em sua casa. Pobre velho, perder aquele jogo fez todos esquecerem os anos de vitórias. Bem, naquelas fotos eu pude observar Grosics tentando socar a bola no cruzamento do segundo gol e sendo impedido por Morlock. Falta clara. E daí. As bolas continuam entrando na minha memória, elas continuarão sempre. Só queria poder dormir finalmente, só queria nunca ter pisado em Berna naquele dia de tempestade. Nem anos depois.
Budapeste e suas ruas onde eu corria atrás de uma bola.
Barcelona e esta janela no sétimo andar.
Berna e as lágrimas no velho Estádio Wankdorf.
Primeiro os malditos alemães. Depois os malditos portugueses.
Agora este maldito câncer que doma meus movimentos, que me impede de cabecear minhas bolas imaginárias.
Agora todos os meus dias são dias de Berna. Chuvosos, malditos, dias em que as bolas teimam em chocar-se contra as traves. Dias de chão.
As pessoas me visitam e lembram minhas glórias, minhas vitórias, minhas fotos com o Major. Enquanto isso eu escuto minhas lembranças no escuro da madrugada, as bolas que Czibor e Toth me cruzam, as bolas que teimam em não entrar. Gustav perplexo no trem que nos levava de volta para Budapeste. Os militares trancando Grosics na cadeia por crime de traição. Ah, se todos os goleiros após uma derrota fossem presos !
Por vezes caminho até a janela. Olho as pessoas que passam na rua. Olho a liberdade de poder ir e vir, ou quem sabe a liberdade de poder dormir sem pesadelos. Muitas vezes gostaria de ser apenas um daqueles húngaros vendedores de salsicha, ou um militar cego e autoritário dando sua vida pela pátria. Muitas vezes acho que deveria me preocupar mais com a doença entrincheirada em meu corpo, ao invés de sonhar com gols que nunca fiz. Mas dizem que todo jogador possui uma alma de criança.
A minha alma ainda respira por ser um pássaro, por um último vôo, um vôo sem traves, sem goleiros, sem defesas, sem derrotas. Um vôo definitivo. Um vôo ultrapassando as redes de Wankdorf, ultrapassando as águas do Danúbio, os zagueiros da guerra fria, as celas da prisão, as armas dos tanques, as lágrimas de meus amigos, o exílio, a terra manchada de sangue, um vôo sobre o Nep Stadium, sobre o Camp Nou, sobre este mundo que nos dá tudo e nos nega tudo. Um vôo sobre a madrugada fria.
Um vôo pleno terminando numa derradeira e fulminante cabeçada no destino...”

Diário de Sándor Kocsis, artilheiro húngaro da Copa de 54, pouco antes de cometer suicídio