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TEXTO: ROBERTO VIEIRA
Rio de Janeiro, 21 de fevereiro de 1945
Prezado primo Manoel,
A felicidade me invade o peito. Como se eu houvesse terminado um poema. Até minhas terríveis dores de cabeça desapareceram. Acho que foi este jejum prolongado, como se o jejum de um retirante, quem me causava tanto mal. Contei estes dezessete anos como se conta as horas num relógio enjaulado. Anos de inferno, Manoel. E eu não pensei que o inferno pudesse advir do amor que eu tenho por um time de futebol.
Ontem fui dormir feliz. De longe chegou a noticia que o meu querido América vencera o Náutico por 3x0. Em quatro jogos decisivos, três vitórias maiúsculas. O que mais posso eu desejar dessa vida. Apenas me dói o fato de não estar no Recife. Soube que uma multidão conduziu nossos jogadores até o Bar Savoy. Soube que a Ilha do Retiro foi pequena para acomodar tantos quantos quiseram assistir nosso momento de glória.
Sabe como me arrependo de ter jogado pelo Santa Cruz. Eu queria, na verdade, usar o manto verde e branco. Mas eram coisas da idade.
Manoel, mas apresso-me em te contar. Eu , que como sabes , sou o mais descrente dos crentes, cansado de tantas derrotas durante tantos anos, decidi provocar o Criador. Quando o ano começou e foram anunciadas as partidas decisivas, absolutamente certo de que o Náutico seria campeão, chamei o Criador para uma armadilha. Disse-lhe que, caso o meu América vencesse, eu me daria por satisfeito. Poderia ser o último título conquistado. Poderia não ser campeão mais nunca. Eu ficaria feliz com aquele título.
Como Deus não existe, ou não haveria essa vida Severina (gostei desta expressão, talvez eu torne a usá-la no futuro), seria uma mera experiência literária.
No primeiro jogo dessa absurda e interminável disputa final, o inesperado acontece: O América triunfa.
Calei em meu canto, desconfiado.
Mas não havia de ser nada. Quase que torcendo contra meu time do coração, aguardei o resultado da segunda peleja. Empate. Menos mal, o universo parecia estar voltando para o seu lugar devido. E durante certo tempo acalentei novamente a certeza no meu mundo material. Pois tu sabes, inspiração eu deixo contigo. Não me deixo levar por esta quimera.
Manoel. Chegou então o momento do terceiro jogo. Acordei convicto de que ali terminavam minhas dúvidas metafísicas.
E o América venceu novamente!
Tranquei-me em mim mesmo. O mundo inteiro em guerra e eu convalescendo de uma absurda dúvida existencial.
Conto a ti estas coisas, pois sei que somos diferentes. Tens inspiração, lirismo, lembranças que eu não consigo ter. Quem sabe tens até fé em Deus. Não essa fé social, mas uma fé real, idealista. Eu lia versos de cordel para os empregados lá do engenho, eu tinha pena deles, mas uma pena racional. Uma pena da vida e da morte daqueles pobres diabos. Que já vivem no inferno.
Mas agora se tratava de um fato totalmente diverso. Os céus subitamente ganhavam vida. E o América subitamente parecia uma máquina argentina de jogar futebol. Ia triturando os alvirrubros. Sem dó nem piedade.
No dia de ontem fui para meu quarto e lá me tranquei. Li muito. Dormi um pouco. E quando as horas do jogo se escoaram, busquei saber notícias do Recife. Estava novamente racional. Não cogitava que poderes sobrenaturais controlassem uma pelota, vinte e dois homens e um mero jogo. Mal disfarçando, porém, um certo nervosismo, escutei quando alguém gritou lá de dentro que mandassem me avisar: O América era campeão pernambucano!
Enlouqueci Manoel. Confesso que perdi meu prumo durante alguns instantes e caso estivesse em Recife teria sido uma festa. Imaginei tantos anos de sofrimento. Imaginei Recife coberto de verde. Vou querer pintar o Bar Amarelinho com outras cores amanhã. E diabos, ninguém conhece meu América aqui no Rio!
Agora, restabelecido e feliz, eu sei que tudo não passou de um surto de superstição. Uma insanidade temporária. Uma perda momentânea da razão. O América era de fato um esquadrão invencível. Ano que vem será, aliás, daqui a alguns meses, será bicampeão. Hoje somos os campeões de 1944, mesmo estando em 1945. Coisas deste futebol brasileiro, que nunca foi muito sério.
Deus , se é que existe , deve estar cuidando de outras coisas mais importantes.
Um abraço meu caro Manoel Bandeira,
Do seu primo,
João Cabral de Melo Neto

criado por Roberto Vieira
10:04:11

1945.
Após uma sensacional disputa com o Náutico, o América se sagra campeão pernambucano de 1944.
Uma multidão percorre as ruas do Recife até chegar ao Bar Savoy.
Dezessete anos depois do último título, o América dá seu último suspiro.
Hoje, o América é só saudade!

criado por Roberto Vieira
09:57:16
Acosta é singular.
Enquanto Rogério Ceny é plural, defende e marca gols. Acosta é singular.
Aos 19 anos, Acosta descobriu que iria ser pai. Ganhava na época 400 reais como jogador de futebol. Muitas vezes nem recebia.
Precisando sustentar sua esposa e filha, Acosta abandonou os gramados. Foi ser feirante.
Durante seis anos, Acosta não marcava gols, não dava passes. Acosta vendia frutas e verduras numa quitanda.
Aos 25 anos, Beto Acosta foi convidado para jogar no Cerrito de Montevidéu. Mas não largou a quitanda.
Acordava de madrugada, vestia o uniforme de feirante e trabalhava até o meio-dia, quando partia para o treino.
A jornada dupla só teve seu final quando foi contratado pelo Peñarol em 2005.
No final de 2006, o uruguaio decidiu se transferir para o Clube Náutico Capibaribe. Teve que esperar dois meses até sua regularização.
Na estréia, um gol de placa. No jogo seguinte, uma expulsão. Momentos de gênio se mesclavam com carrinhos de volante.
A torcida não sabia se aplaudia ou vaiava.
No Brasileirão, Acosta mesmo machucado em campo conseguiu forças para marcar um gol em Rogério Ceny. Náutico 1 x 0 São Paulo.
Quando o Náutico perdia por 4x2 para o Paraná em casa, Acosta fez dois gols e empatou a partida. Herói.
Foi expulso em seguida. Vilão. Saiu chorando de campo.
Seguiu marcando e sendo expulso, herói e vilão, até que no domingo 9 de setembro dinamitou o Botafogo com quatro gols.
O primeiro estrangeiro a marcar quatro gols em partidas do Brasileirão.
Continuou marcando gols. Contra o Cruzeiro no Mineirão o Timbu perdia por 2x0. Jogando com o time reserva.
Acosta empatou o jogo. E pra variar, foi expulso no final da partida.
Voltou para transformar um jogo perdido contra o Grêmio em um improvável 4x3.
De folga, envolveu-se em um acidente de carro que por pouco não tirou sua vida.
Beto Acosta é pois, singular.
Um caso de ame-o ou deixe-o.
No futebol linear, burocrático e sonolento de hoje em dia, Acosta é o inesperado.
O torcedor não pode ir cedo pra casa com Acosta em campo.
Porque com Alberto Martín Acosta em campo, tudo pode acontecer.
Tudo.
Talvez Acosta não seja escolhido o craque do campeonato.
Pena.
Jorge Valdivia tem os votos da torcida do Palmeiras, Rogério Ceny tem seus admiradores.
Mas certamente, este foi o campeonato de Alberto Martín Acosta.
Acosta que resume a vida de boleiro em uma frase:
'Jogador, se não passar fome, não é jogador...'

criado por Roberto Vieira
09:12:33
Pois é, no Figueirense também tem gato.
O zagueiro Michel Schmoller, 19 anos, estava na seleção brasileira sub-17 quando o seu pai confessou ter adulterado seus documentos.
Schmoller revelado no futsal. Campeão infantil.
Sempre adulterado.
A certidão de nascimento foi alterada pelo pai.
O jogador cumpriu 180 dias de punição pelo STJD.
Só volta a jogar em janeiro.

criado por Roberto Vieira
09:08:13

Gancho unânime.
Não joga contra o vasco pelo terceiro cartãoamarelo.
Não joga contra o Grêmio pelos gestos ofensivos no jogo contra o Goiás.
Adeus, Finazzi!

criado por Roberto Vieira
08:58:29