O BLOG DO ROBERTO

Futebol e História.

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Arquivo de: Dezembro 2007, 24

24.12.07

CONTO DE NATAL

 

POR ROBERTO VIEIRA

                O VELHO COLÉGIO NÓBREGA

 

Quando eu era pequeno e jogava bola no colégio, sempre existia um muro.

Alto e com um cachorro brabo do outro lado.

E a bola, invariavelmente caía do outro lado. No melhor do jogo.

Azar.

O cachorro tinha um dono. Bernardo. Torcedor do Sport. A gente sabia pela imensa bandeira rubro-negra na janela do casarão.

E Bernardo não devolvia a bola, nunca.

A gente também nunca viu o Bernardo. Ele nunca dava as caras. Rico e orgulhoso.

O jogo parava e a gente tinha de esperar até alguém conseguir uma outra bola.

Porque bola era luxo. Se ganhava no aniversário. Por vezes no Natal. E só.

Mas sempre aparecia alguma bola dias depois. Vinda não sei de onde. Quem sabe de outros muros?

O jogo recomeçava. Todo mundo morrendo de medo de chutar mais forte.

Até que dias depois, pimba! A bola era chutada por algum perna-de-pau e ia parar no quintal de Bernardo.

O cachorro gritava. E todo mundo, com medo, ficava esperando o futuro.

Mesmo assim, a infância era feliz. Tinha bola de gude, que nunca caía na casa de Bernardo.

Tinha pipa. Tinha polícia e ladrão. Tinha Fratelli Vita.

Os anos se passaram e o mundo mudou.

Mas sempre que a velha turma se encontrava, lembrava das bolas e do muro. Do cachorro. De Bernardo.

Foi então que ano passado, tive uma surpresa.

Fui visitar o velho colégio. Colégio que vai deixar de ser colégio. Vai virar shopping center.

Uma das irmãs de caridade me reconheceu. Sempre passo por lá no Natal. Estava triste com o fim da escola.

De repente, comentou:

- O antigo casarão também vai virar shopping center! Vão derruba-lo depois do Natal.

Pensei em Bernardo. Na certa iria lucrar uma barbaridade com a venda do imóvel.

Antes que eu pudesse completar meu raciocínio, a irmã apontou um homem sentado no jardim:

- Lembra dele? Era o menino que morava no casarão.

Lá estava Bernardo. Olhando para o jardim, o campinho de terra, a velha quadra de basquete.

Bernardo estava sentado em uma cadeira de rodas.

Não pude deixar de caminhar até ele. Apresentei-me. Eu era o velho menino que chutava as bolas para seu quintal.

Surpreso, Bernardo olhou para mim. Lembrava das bolas.

Perguntei pelo cachorro. Ele disse que Manga, esse o nome do cachorro, havia morrido há muito tempo.

Sorrindo, Bernardo me contou que lembrava das bolas que iam cair no seu quintal.

De como ele sofria ouvindo nosso gritos de gol. Ele que não podia jogar.

Manga ficava muito zangado quando a gente jogava. Ele sofria vendo o seu dono sofrendo. Por isso gritava tanto.

Sua mãe nunca devolvia as bolas. Imaginava que aquele barulho trazia sofrimento ao filho.

Fiquei mudo.

Até que Bernardo, percebendo meu silêncio, murmurou:

- Na verdade eu gostava quando tinha jogo. Você não imagina nas férias, quando o silêncio era completo. E naquela época nem o Sport me dava alegria...

Verdade. Foram os anos do Hexa do Náutico. Do Penta do Santa Cruz.

Despedi-me. Deixei meu telefone com ele. Saí pensativo pelas ruas do Recife.

Eu pensava nas bolas e nos muros. Nas distâncias que separam quintais.

Algo em mim nunca mais foi o mesmo.

Hoje, quando o Náutico perde. Quando o Sport vence. Lembro sempre de Bernardo e de outros meninos como ele.

E agradeço a vida e a Deus.

Deus que sabiamente fez o dia e a noite.

A vitória e a derrota.

Para que o sorriso e a lágrima jogassem bola nos dois lados do muro.

ENTREVISTA: FAUSTO DOS SANTOS, A MARAVILHA NEGRA

 

Na máquina do tempo para descobrir:

O futebol era melhor ontem ou hoje em dia?

                  

POR ROBERTO VIEIRA

- Bom dia, Mestre Fausto!

- Bom dia!


- Como vai a saúde?


- Melhor. Parece que os ares de Minas irão me ajudar...


- Fausto, nos últimos dias muito se discutiu sobre os craques do passado e do futuro.


- Por causa da frase de Pelé sobre Kaká?


- Isso. Você acha que você, Fausto, teria vaga nos times atuais?


- Acho que sim. Embora não fosse mais escalado como eixo. Quem sabe jogar, joga em qualquer tempo.


- Você seria melhor ou pior?


- Acho que eu seria melhor. Francamente. Pelo menos já haveria cura para a minha tuberculose.


- Você atuou muito tempo tuberculoso?


- Acho que joguei doente desde a Copa de 30. As febres não me abandonavam de todo.


- E mesmo assim você assombrou o mundo em 1930.


- É. Havia uns momentos em que eu me sentia um menino em Codó. Correndo sem parar, apesar da fome. Foi assim em Montevidéu.


- Seus companheiros de time jogariam no século XXI.


- Por que não? Jaguaré era um monstro. Repito, um monstro. Domingos da Guia! Domingos da Guia seria eleito o melhor do mundo por vezes seguidas.


- E Leônidas?


- Hors Concours. Não é assim que a Revista Placar considerou Pelé? Hors Concours!


- E o contrário? Kaká teria vaga nos anos 20, 30?


- Talvez Kaká não jogasse futebol.


- Por quê?


- Pouca gente de bem ousava jogar bola naquele tempo. Os pais não viam com bons olhos seus filhos misturados com os boleiros.


- Mas ele podia ser um Preguinho, um Nariz?


- Poderia. Mas o lado de fora do campo era ainda mais diferente que entre as quatro linhas. Recebiamos uns trocados por fora, se houvesse uma fratura era quase certa a aposentadoria. Tuberculose, sífilis, alcoolismo, loucura andavam de braços dados com os atletas. Só jogava quem tinha muito amor pela bola. Uma paixão que vencia os campos cheios de buracos, as facas que os torcedores levavam a campo. A solidão depois de velhos.


- Mas se ele jogasse, teria vaga naquele tempo?


- Claro. Mas ele não seria Kaká. Seu preparo físico seria outro. Mas quem sabe nunca esquece. Talvez ele fosse ainda melhor.


- Seu tempo no Barcelona traz boas recordações?


- Sim e não. Principalmente quando tentaram me fazer jogar doente. Com febre de trinta e nove graus!


- E o dinheiro.


- Para mim era uma fortuna. Mas comparado aos dias de hoje, um quase nada.


- O racismo atrapalhava?


- Como disse aquele comentarista, o Alberto de Freitas: 'Com tanta classe, até se pode não ser branco...'


- Qual o melhor futebol? O do seu tempo ou o atual?


Fausto sorri. Depois começa a tossir. A enfermeira interrompe a entrevista.

Pede pra que eu me retire.


No lençol, sangue.


Digo adeus, não sem antes notar duas lágrimas em seus olhos distantes.


Fausto, a Maravilha Negra, dorme.

Certas perguntas continuarão sem resposta.

PERGUNTAS DO VELHO CHICO

 

Este texto foi publicado no Jornal do Commercio e no Blog do Jamildo este ano.

As perguntas do velho rio permanecem atuais.

Principalmente quando encontro notícias como esta da foto... De 1989.

                                   

 

Por ROBERTO VIEIRA

 

Em 1501, os navegantes Américo Vespúcio e André Gonçalves descobriram um rio que os índios chamavam de Opara.

Mar.


Em homenagem ao santo de Assis, batizaram-no de São Francisco.


Do outro lado do mundo havia um lago, que de tão grande batizaram de mar - o Mar de Aral, que na língua kasake significa “ilha”.


O que une o rio e o mar?


As estepes e o Sertão?


Devido a projetos megalomaníacos de sucessivos governos soviéticos, desviando as águas dos seus afluentes para a irrigação, O Mar de Aral passou a ser um deserto de sal.


A água residual hoje se encontra repleta de resíduos de agrotóxicos.


A região, que já era pobre, agora se encontra miserável.


Parodiando as profecias de Antônio Conselheiro, o Mar de Aral virou Sertão.


Ao tomar o conhecimento deste fato, o Velho Chico gostaria de respostas para algumas perguntas:


A quem serve a transposição das águas?


Como resolver o paradoxo de que o período de maior necessidade das águas nos rios intermitentes é também o de maior necessidade de água nas hidrelétricas?


Como iniciar um projeto de transposição sem antes resolver o desmatamento das várzeas, a pesca predatória, as queimadas, o garimpo,o assoreamento e a irrigação desenfreada?

 
Qual o custo dessa água e quem vai pagar por ela?


Como vivemos numa democracia, e não sob o jugo de Stalin ou Breznev, talvez as perguntas do Velho Chico não fiquem sem resposta.

LETÍCIA E O RIO

 

Contra o sorriso e a lágrima de Sabatella, quem há de...

                                                    

 

Caro deputado Ciro Gomes,


Antes de visitar frei Luiz Cappio em Sobradinho, tinha conhecimento desse projeto da transposição de águas do Rio São Francisco, através da imprensa, e de duas conferências sobre o meio ambiente, das quais participei a convite de minha querida amiga, a ministra Marina Silva. Há alguns anos, quieta também, venho escutando pontos de vista diversos de ambientalistas, dos movimentos sociais, de nossa ministra do Meio Ambiente e refletindo junto com o Movimento Humanos Direitos (MHuD), do qual faço parte. Acompanho a luta de povos indígenas e ribeirinhos, sempre tão ameaçados por projetos de grande porte, que visam a destinar grande poder para um pequeno grupo em troca de tanto prejuízo para esses povos, ao nosso patrimônio social, ambiental e cultural.

Acredito que devam existir benefícios com a transposição, mas pergunto, deputado, quem realmente se beneficiará com esta obra: o povo necessitado do semiaacute;rido ou as grandes irrigações agrícolas e indústrias siderúrgicas? Afinal, a maior parte da água (bem comum do povo brasileiro) servirá para a produção agrícola e industrial de exportação e apenas 4% dessa água serão destinados ao consumo humano.

Sabendo do desgaste que historicamente vem sofrendo o rio, necessitado de efetiva revitalização, sabendo do custo elevado de uma obra que atravessará alguns decênios até ser concluída e em se tratando de interferir tão bruscamente no patrimônio ambiental, utilizando recursos públicos, por que razão, em sendo sua excelência deputado federal, este projeto não foi ampla e especificamente discutido e votado no Congresso? Por qual motivo essa obra tão “democrática” foi imposta como a única solução para resolver a questão da seca no semiaacute;rido, quando propostas alternativas, que descentralizam o poder sobre as águas, não foram levadas em consideração?

No dia 19 de dezembro de 2007, o que presenciei na Praça dos Três Poderes, em Brasília, foi a insensibilidade do Poder Judiciário, a intransigência do Poder Executivo, e a omissão do Congresso Nacional. Será que não precisamos mesmo falar mais sobre democracia republicana, representativa? Ou melhor, praticar mais? Quanto ao gesto de frei Luiz, sinto que o senhor não age com justiça, quando não reconhece na ação do frei uma profunda nobreza. Sinto muito que o senhor ainda insista em desqualificálo. Por tê-lo conhecido e com ele conversado, participado de sua missa na Capela de São Francisco junto aos pobres, pude testemunhar sua alma amorosa e plena de compaixão humana, pastor de uma Igreja que mobiliza e não anestesia, que ajuda a conscientizar e formar cidadãos. Ele vive há mais de trinta anos entre ribeirinhos, indígenas, trabalhadores rurais, quilombolas e é por eles querido e respeitado.

Conhece profundamente as alternativas propostas pelos movimentos sociais, compostos por técnicos e estudiosos que há muitos anos pesquisam o semiaacute;rido. Uma dessas alternativas foi proposta pela Agência Nacional de Águas, com o Atlas do Nordeste, que foi objeto de seu debate com Roberto Malvezzi, da Comissão Pastoral da Terra, cuja honestidade intelectual o senhor publicamente enalteceu em seminário realizado na UFF. Ele mostrou que o projeto da ANA custaria R$ 3,3 bilhões, metade do custo da transposição, beneficiando com água potável 34 milhões de pessoas, abarcando nove estados: então, por que o governo não levou em consideração esta opção mais barata e mais abrangente? Infelizmente, caro deputado, Dom Cappio não exagerou quando decidiu fazer seu jejum e fortalecer suas orações para chamar a atenção de todos à realidade do povo nordestino. O governo do presidente Lula optou por um modelo de desenvolvimento neocolonial que, dando continuidade à tradição de realizar grandes obras para marcar seus mandatos, sacrifica o povo com o custo de seus empreendimentos, enquanto o que esperávamos deste governo era a prática de uma verdadeira democracia.

Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2007

                                            Letícia Sabatella