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Terra Blog

Arquivo de: Dezembro 2007, 28

28.12.07

O CADERNO DE CELSO CORDEIRO

 

                

 

Todo pesquisador tem um caderno.

 

De notas. De fatos.

 

De súmulas.

 

Não resisti e tirei a foto do caderno de Celso Cordeiro.

 

Organizado.

 

Matemático.

 

Bem diferente das minhas folhas soltas.

 

Perdidas de vez em quando.

O ALVIRRUBRO CELSO CORDEIRO

 

                

                                    CELSO CORDEIRO

 

Fevereiro de 2007.

 

Estava visitando o Arquivo Público.

 

Sentado, um homem examinava atentamente um jornal de 1945.

 

Um artigo sobre o América.

 

Perguntei sobre o América e sobre o jornal.

 

Ele começou a falar sobre a façanha do América naquele ano.

 

Eu fiquei me perguntando quem era ele.

 

E depois de algum tempo ele se apresentou:

 

Celso Cordeiro.

 

Ah, aquele era Celso Cordeiro!

 

Pois Celso Cordeiro é uma lenda.

 

Como Givanildo Alves. Como Lucídio Oliveira.

 

Todos geniais.

 

Todos alvirrubros.

 

Todos contaminados com o vírus do pó dos arquivos.

 

Sem eles, os alvirrubros seriam alvirrubros.

 

Mas as histórias ficariam no passado.

 

Esquecidas.

 

Silenciosas.

 

CAMPEONATO DOS SONHOS: NÁUTICO X AMÉRICA

 

 

Zé Tasso quase chega atrasado.

 

Ficou a noite toda no Poço da Panela. Lembrando.

 

Lembrando um Recife que já não existe.

 

Um Recife do tempo em que ele partiu para São Paulo. Para jogar na Seleção.

 

Para ser campeão no Paulistano.

 

Ele cumprimenta os amigosa de 1922.

 

E conversa com os heróis de 44.

 

Como vencer o Náutico?

 

Do lado alvirrubro uma estranha calma.

 

O jogo parece favas contadas.

 

Embora Muricy Ramalho exija respeito.

 

Mas como ter respeito se o goleiro do outro time nem luva usa?

 

O juiz Alcindo Wanderley, Pitota, chama as duas equipes ao centro do gramado.

 

Quer um jogo limpo. Na bola.

 

Como é a tradição do Clássico da Técnica e da Disciplina.

 

O Náutico alinha Lula; Gena, Beliato, Fraga e Marinho Chagas; Ivan e Salomão; Nado, Jorge Mendonça, Bita e Baiano.

 

O América vem com Leça; Rômulo e Faustino; Lindolpho, Licor e Zizi; Zezinho, Julinho, Zé Tasso, Juju e Oséas.

 

Assumem a direção do América dois torcedores ilustres: Hélio Pinto e João Cabral de Melo Neto.

 

A pelota rola no gramado da Avenida Malaquias.

 

O ultrapassado WM do América não consegue se encontrar.

 

Gena e Nado partem para cima de Faustino e Zizi.

 

Logo aos 3' uma bola é desferida contra o arco de Leça por Bita.

 

O Homem do Rifle.

 

E Leça segura a bola. Com uma só das mãos.

 

Leça devolve o couro para  Lindolpho que estica a bola para Zezinho.

 

No instante seguinte a bola chega a Oséas. Desmarcado.

 

Lula Monstrinho se atira aos seus pés.

 

Oséas fica perplexo.

 

No seu tempo, goleiro não saía do gol.

 

Ivan e Salomão dividem o meio de campo.

 

Mas o gol não sai.

 

Baiano dribla dois e chuta por cima.

 

Jorge Mendonça é seguido de perto por Licor.

 

Quando a bola chega nos seus pés. Falta. Uma, duas, três vezes.

 

A antiga torcida do América ressurge nas velhas arquibancadas de madeira.

 

O primeiro tempo termina 0x0.

 

O América resistiu 45 minutos sem levar gol.

 

E o Náutico continua imaginando que vai vencer quando quiser.

 

Limonada para os atletas. Salsaparilha para a torcida.

 

Pitota chama os times para a segunda etapa.

 

E no primeiro minuto da etapa complementar, um milagre.

 

A bola chega em Julinho. Que estica na ponta para Zezinho.

 

Zezinho cruza. Beliato tenta dominar e a bola lhe escapa.

 

Fraga observa Zé Tasso dominando.

 

No instante seguinte a bola viaja com força. No ângulo direito de Lula.

 

Ninguém parece acreditar:

 

América 1 x 0 Náutico.  

 

Marinho estava no ataque. Pra que marcar esse tal de Zezinho?

 

'Vamos virar!'

 

Começa o bombardeio.

 

Nado chuta na trave.

 

A defesa do América chuta pra rua.

 

Bita não consegue tabelar com Baiano.

 

Quando o Timbu consegue chutar em gol, aparece Leça.

 

Aparece o travessão.

 

De repente, um contra ataque.

 

Zé Tasso recebe de novo livre. Corre por toda intermediária alvirrubra e coloca mansinho.

 

No canto esquerdo de Lula.

 

2x0.

 

E o silêncio da galera Timbu é completo.

 

O tempo passa. O tempo nunca passou tão depressa em Recife.

 

Beliato toca para Ivan. Ivan para Salomão.

 

A defesa do América não entende aquele moço loiro correndo.

 

Salomão desliza a bola para Marinho. E Marinho enche o pé de fora da área.

 

Pra nem Leça pegar.

 

América 2 x 1 Náutico.

 

Dá tempo?

 

Mas o tempo já se foi.

 

Pitota apita final do espetáculo.

 

Eládio de Barros Carvalho põe a mão na cabeça.

 

Ninguém parece acreditar.

 

Os jogadores do América choram esparramados no gramado.

 

Leça é carregado pela multidão.

 

Bita senta desconsolado no antigo campo.

 

O sonho se torna pesadelo.

 

Beliato e Lula vão até os adversários e apertam suas mãos.

 

Enquanto isso, um cortejo de antigos automóveis se dirige até o Savoy.

 

Rubem Moreira abre um sorriso.

 

Hélio Pinto pula que nem criança.

 

E num canto do estádio.

 

Lágrimas nos olhos.

 

Um velho poeta sonha acordado.

 

'É anônimo o torcedor,
sem feições, como a campina;
é como um mar sem navios,
papel em branco de escrita...'

                     verso adaptado de João Cabral de Melo Neto