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Futebol e História.

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Arquivo de: Janeiro 2008, 31

31.01.08

OS CÁLCULOS DE ADETHSON PARA A SEGUNDA FASE

 

 

O grande matemático Adethson Leite deixa claro no Blog dos Números o caminhos das pedras na segunda fase do enigmático estadual.

Segundo seus cálculos, o Náutico já possui a companhia de Sete de Setembro e Petrolina. A vaga restante ficando com o Vera Cruz, Centro Limoeirense ou Central.

A outra vaga pode vir a ser do Vera Cruz, caso o Salgueiro vença o Central.

Ou seja, o grupo que o Timbu pediu a papai do céu.  

Caso o Central vença, teremos a revanche contra o Centro Limoeirense de Buiú.

Caso o Central empate, jogaremos contra o próprio Central.

Tais elementos geram uma nova surpresa no regulamento do campeonato.

Teoricamente, o Central joga logo mais podendo escolher qual grupo lhe convém.

Coisas de um Campeonato da Tamarineira.

Com todo respeito aos doidos de plantão.

AS GENTILEZAS DA GENTILÂNDIA

 

Os textos abaixo são únicos. Contam a história de uma época pouco lembrada do Clube Náutico. Uma época sem títulos. Mas uma época de grandes craques.

Os textos foram escritos pela Enciclopédia Alvirrubra, Lucídio José de Oliveira.

Não precisa dizer mais nada...

 

POR LUCÍDIO JOSÉ DE OLIVEIRA 

O Náutico teve nos dourados anos 50 do século que passou, um jogador especial: o badalado Ivson de Freitas. Não era de fazer gol de saída, mal tivesse o jogo começado, especialidade do inglês Bryan Robson. Isso, na história do Náutico, fica por conta de Nivaldo e de Tales. Os gols de Ivson eram os do milagre do empate ou da vitória de virada, o jogo caminhando para o final. Ficavam para depois. Ivson não tinha pressa.

Campeonato de 1954, todo ele disputado no campo do Sport. Dá para imaginar? Uma ilha cercada de dificuldades por todos os lados. O time e a torcida, o tempo todo alerta. Pois foi aí nesse retiro, onde alvirrubro nunca tem sossego, que Ivson deitou e rolou. Fez gol quando e como quis. Reinou na Ilha acima de todo mundo.

Reta final do campeonato. Melhor-de-três contra o Sport, o senhor dono da casa. Empate no domingo (2x2), início da decisão. Foi ele quem abriu o placar, botando o Náutico na frente. Nesse dia, Ivson estava com pressa. No noturno da quarta-feira, foi o dono do jogo: Náutico 3x2, três gols dele no correr do jogo. Deixando o tempo passar, como era do seu jeito. O homem era impossível. O título de campeão do Tricentenário da Restauração estava no papo. Era só empatar no domingo. E não deu outra: 1x1 no placar. Ivson deu a vez a Hamilton, o autor do gol alvirrubro. Náutico campeão fazendo todas suas partidas na casa do adversário. Fato inédito. Não teve troco nem nunca terá. Jamais voltará a acontecer.

Fazer dois gols numa partida era coisa comum para Ivson. Raramente porém chegava a três. O difícil, em se tratando de Ivson, era passar em branco. Um gol ele garantia, se bobeassem fazia o segundo. Um dia porém Ivson abusou. Aconteceu em 1957, mês de maio. Amistoso nos Aflitos contra o campeão cearense. Não era o Ceará nem era o Fortaleza. Não era também o Ferroviário, a terceira força. Muito menos o Maguary, grande até uma década atrás. Nem o América, campeão somente dez anos na frente. Era simplesmente o Gentilândia, time de vida curta. Logo desapareceu do mapa. Mas naquele ano legítimo campeão cearense! E a gente tinha o futebol do estado do Ceará naquele tempo na conta do grande rival. Mas, com esse nome? É, só podia dar mesmo no que deu: Náutico 9 x 1! Para a torcida alvirrubra, um gentilíssimo Gentilândia.

E quem fez tantos gols? Vamos lá: quatro gols de Ivson, quatro de Benítez. E para completar o placar, um gol de Ibiapino. Zezinho Ibiapino. O nome diz tudo, só podia ser cearense... E era. Mais um artilheiro de lá, tipo exportação. Na mesma esteira que nos mandaria ainda no mesmo ano, Mozart e, logo depois, Pacoti, o recordista.

No próximo texto eu conto o que aconteceu de inusitado na beira do gramado quando o Náutico fez o nono gol. Vocês não vão acreditar.

DOM RICARDO MANDOU PARAR!

 

    

                                              

                                

 Por LUCÍDIO JOSÉ DE OLIVEIRA

A estrela do jogo Náutico 9x1 Gentilândia foi sem dúvida Ivson. O artilheiro estava em estado de graça. Vivia as vésperas de sua ida para Portugal. Além dos quatro gols, as jogadas e os passes com açúcar e com afeto para o companheiro Benítez também luzir. Ivson dispensa comentários. Ivson era Ivson. E pronto, acabou. Benitez, pelo contrário. Hoje, pouco lembrado, precisa dizer ao leitor de quem se trata. Apresentar ao torcedor jovem a fera que foi Benítez. É o que vou fazer, agora.

Meia ponta-de-lança pela esquerda, paraguaio de origem, tinha sido artilheiro carioca em 53 (22 gols), tricampeão pelo Flamengo (52-53-54). Estrela da seleção paraguaia no Sul-Americano de 1949, do time do goleiro García e do ponteiro Parodi. Um time que deu um susto danado no Brasil. Num São Januário lotado de gente para a festa do título, quem fez a festa foi Benítez... Paraguai 2x1, um gol de Benítez. Brasileiros e paraguaios tiveram então que jogar uma extra. A verdade do futebol pôde por fim ser restabelecida: Brasil 7x0. A Canarinha, que ainda não vestia amarelo, era bem superior aos guaranis. De uniforme todo branco, azul somente na gola e na borda da manga. Ademir fez três gols, Tesourinha, dois, e Jair, artilheiro do torneio, também dois.

Apresentado Benítez, vamos ao que interessa. O que fez Benítez nos Aflitos? Trinta e três gols com a camisa alvirrubra num número um pouco maior de jogos. Uma boa média, de quase um gol por partida. Mas não foi campeão... Isso é fatal para um artilheiro. Terminou caindo fora, abrindo a vaga para Edmur, este sim, ainda que também sem títulos na sua passagem pelo Náutico, um atacante que ainda hoje tem fã-clube entre os timbus. Mais presença de área, mais juventude, e mais categoria.

De todo modo, Benitez também brilhou. Inúmeros jogos ao lado de Ivson, tardes de puro encanto para a torcida alvirrubra. E, para marcar a parceria, o privilégio de estar ao lado do grande artilheiro na tal goleada histórica em cima do campeão cearense. Não é todo dia que se vence de lavagem o campeão do Ceará! Uma goleada que ficou registrada para a posteridade através da manchete do Diário de Noite em sua edição da segunda-feira, 20 de maio de 1957: DOM RICARDO MANDOU PARAR!

O “Dom Ricardo” da manchete, reportagem com a assinatura de Aramís Trindade – só podia ser ele! -, era o velho cigano Ricardo Diez, treinador uruguaio que fez pouso em nossa terra em 1941. Foi campeão pelo Sport. Ganhou o campeonato e foi embora de volta. Para retornar mais adiante, voltando sempre a Pernambuco. Para treinar o Náutico em duas oportunidades, o Sport ainda mais uma vez, o Santa Cruz também, vivendo seus derradeiros dias de treinador, doente e cansado de guerra, como técnico do Central. Pernambuco era sua terra prometida.

A ordem do velho treinador, os cabelos cor de prata chamando a atenção à beira do gramado, foi dada assim que o Náutico fez o nono gol. O autor do gol? Benítez, jogada de Ivson. E o jogo não estava chegando ao fim. Restava ainda um bom tempo para acabar. Tinha até vaga para mais.

A foto da manchete do saudoso Diário da Noite diz tudo.

Em tempo.

O amigo Antônio Portela, jornalista dos bons, um timbu sarado, manda-me o recado:

"Que bom você lembrar Jorge Duilio Benítez Candia, de tantos gols lindos com a camisa do Náutico!"

Com o futebol que tinha, com os gols que fazia e com a nobreza do nome, Dom Benítez não era mesmo para ser esquecido.

Ainda que seja tempo do Galo.

30.01.08

O ÚLTIMO GOL DE KUKI

 

                        

O futebol tem dessas coisas. Quando tudo em volta é matemático, eis que ele ressurge mágico. No meio da semana, numa rodada pré-carnavalesca. Uma rodada feita de gols, como todas as outras rodadas desde que o mundo é mundo. Mas com todo mundo pensando em frevo, em galo, em madrugadas.

No entanto, eis que o momento maior da rodada estava reservado para o final da partida Náutico x Serrano. O gol do maior ídolo do futebol estadual deste século. O último gol de Kuki.

Alguém dirá que decerto não foi o último. E não foi mesmo. Mas de hoje em diante, todo gol de Kuki deve ser tratado como uma dádiva. Uma vitória contra o inevitável adeus.

Não foi um gol antológico. Foi apenas lógico.

Porém, só o fato de ser um gol de Kuki já transforma o gol em história. Pois foi um gol com aquele sabor das coisas que foram. Coisas que talvez não venham a ser novamente. Como vocês sabem, o tempo é ingrato com as chuteiras. O tempo é rápido, veloz. Como eram velozes as arrancadas dos grandes centroavantes nos gramados irregulares de Pernambuco.

Eram.

Regular só o tempo. Imutável. Por isso quando Kuki balançou as redes do Serrano na noite de quarta-feira, o tempo parou por um instante. Quântico. Reverente. Ao homem que por três vezes foi campeão pernambucano. Três vezes artilheiro desta terra.

Um dia quando os novos Lucídios, Celsos e Givanildos contarem a história do nosso tempo e dos nossos gols, lá estará gravado o nome deste baixinho invocado. Alma e motor do Náutico fênix. O Náutico que se recusou a ser passado. Náutico que ainda faz sonhar quem ama este louco destino de fazer as redes balançarem infinitamente neste jogo que jogamos contra o tempo.

Jogo que só vencemos quando gritamos gol!

Quando resistimos ao destino embriogênico de esquecer.