O BLOG DO ROBERTO

Futebol e História.

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Arquivo de: Fevereiro 2008, 18

18.02.08

DEU ZEBRA!

                                                                                         

                                            LIVRO 'ASSIM FALOU NENÉM PRANCHA'

Por ROBERTO VIEIRA



O jogo do bicho chegou em Pernambuco no ano de 1895.

Na época, o Sr. Virgilio Campelo já ganhava um dinheirinho passando a Loteria do Barão de Drummond.

Barão de Drummond que só queria dar uma mãozinha pro zoológico do Rio.

Porém, está dando zebra no jogo do bicho em Pernambuco. Como diria o lendário botafoguense Antonio Franco de Oliveira*.

O governo do estado decidiu acabar com a pouca vergonha dos cambistas e dos bicheiros. De repente.

Bem no momento do lançamento da Timemania.

Esta semana teve passeata dos funcionários do jogo do bicho. Passeata exótica.

Os funcionários da AVAL, Associação dos Vendedores Autônomos de Loteria, empunhavam suas carteiras de trabalho.

Confesso que não entendi. O jogo do bicho é contravenção.

Mas o governo aceita receber o dinheiro do benefício dos contraventores.

Não sabia que uma empresa ilegal poderia ser legalizada. Pagar impostos. Santa ignorância funcional.

Como no Brasil só é permitido jogar se o dono do cassino for o governo, caso da Timemania, aguarda-se uma solução para os milhares de pessoas que ficarão desempregadas com a medida.

Para que não se tornem marginais.

Para que possam exercer seu direito de trabalhar.

E não me venham com a conversa de que jogo é pecado. Jogue a primeira pedra quem nunca fez sua fezinha!



* Neném Prancha

O EPÍTETO

 

POR ROBERTO VIEIRA

 

O futebol é um esporte de epítetos. Sempre foi. Ilíada de chuteiras.


Tostão, o mineirinho de ouro. Pelé, o Rei. Mané, o anjo das pernas tortas.

 
O epíteto é tão importante quanto o craque. Sem o epíteto o craque é nada, ou quase nada. O pai do craque só acredita que o filho é craque quando ouve no rádio o epíteto. Mãe é diferente. A mãe já sabe que o filho é craque desde a vida intra uterina. Desde a concepção. Desde os primeiros chutes.

 
Experimente falar La Saeta Rubia. Os mais antigos já imaginam aquele atacante extraordinário que rompia defesas e comandava os times por onde passava de forma única. Indivisível. Não precisa dizer mais nada.


O canhotinha de ouro? Lá está ele no meio de campo da seleção. Em lançamentos milimétricos para Jair e Pelé. Precisa dizer quem é?


O Peito de Aço nos surge desengonçado. Correndo pela esquerda. Inalcançável. Desafiando as leis da probabilidade e da física. Beija-flor pairando no ar.


Tem epíteto que passa de pai pra filho. O Divino pode ser usado por duas gerações. Mas epíteto hereditário é um bem muito raro no futebol. Contam-se nos dedos os mazzolas da história.


Enciclopédia do Futebol só pertence a Nilton Santos. Um milhão de gigabytes de memória na lateral-esquerda. O Galinho cobrando falta. O Peixe marcando gol.


Maravilha, só o Fio. Aranha Negra, Iashin. Queixada era o Ademir.


Mas Doutor pode ser Sócrates. E pode ser Rúbis. O saudoso Doutor Rubens.


Só é craque quem carrega consigo um epíteto. Embora exista muito perna de pau com epíteto. Coisas do futebol. Daqueles dias em que a bola bate na canela e entra no ângulo. Dias em que a sorte mora do lado e alguns jogadores viram heróis. Indignos dos seus epítetos.


Falei isso tudo pra terminar dizendo que o futebol atual anda pobre de epítetos. Carente de antonomásias. Hoje é um futebol de nomes e sobrenomes. Parece golfe.


Será falta de imaginação da crônica esportiva?


Ou falta craque mesmo no mercado?

 

A ENCRUZILHADA DE PETROLINA

 

 

Tenho um carinho especial por Petrolina.

Foi lá que dancei pela primeira vez de rosto colado.

Lá se vão quase trinta anos. Tudo era muito inocente.

Festas na casa de família. Cinema na praça da catedral.

Pelada depois do almoço mesmo com um sol de 40 graus.

De noite a gente ia pro Vaporzinho. Tomar coca-cola e olhar o movimento.

Ninguém fumava e ninguém bebia.

Mas era tudo muito divertido. Ao som de Morais Moreira.

Um ano depois veio o vestibular.

E lá se vão vinte e oito anos que eu não piso em Petrolina.

Dizem que está mudada. Pronta pra receber o Náutico de noite.

Pois hoje, não tem Nego d’água, Vapor Fantasma, Nossa Senhora da Rapadura.

Não tem assombração que dê jeito.

O Timbu tem que vencer.

Pode ser de meio a zero.

Mas seria melhor uma goleada.

Antes de me despedir, um agradecimento.

À belíssima arbitragem de Emerson Sobral no jogo de ontem.

Ele foi perfeito nas expulsões.

Parecia um alvirrubro de tão veloz no gatilho!

Vamos aguardar o pronunciamento do presidente Milton Bivar.

Bivar que semana passada elogiou de boca cheia os nossos árbitros.

 

 

O JOGO DAS CONCHAS

 

 

 

POR ROBERTO VIEIRA

 


Nunca havia visto um jogo do Íbis. No máximo, ouvira alguma partida no rádio, no tempo em que o rádio ainda se ocupava do Íbis.


Hoje o rádio é esnobe. Transmite apenas o que dá Ibope. E o Íbis não dá Ibope.


Mas as lembranças daquelas partidas ouvidas no rádio permaneciam guardadas em sua mente. Um pequeno tesouro da juventude.


O sofrimento das constantes goleadas era compensado de vez em quando por uma derrota apertada. Um 3x0. Um 4x1. 4x1 festejado com muita festa. Não era todo dia que ele podia gritar gol.


O gol era champanhe com caviar. Leito nupcial. Queijo do reino.


No início as pessoas fizeram graça. Já não bastava tanto sofrimento!


Mas ao descobrir que aquele amor lhe trazia alegria e esperança, calaram. Melhor a dor de um trágico amor que amor nenhum.


Nas lembranças do nosso amigo, moravam resultados inesquecíveis. Verdadeiras finais de copa do mundo.


O 4x4 contra o Santa Cruz na estréia do estadual de 1951.


O empate de 1x1 com o Sport em 1959. Jogo em que Rildo lhe deu a camisa de presente. Rildo que depois jogaria na seleção brasileira. Rildo que já era um craque.


A vitória de 1x0 sobre o Náutico em 1961. Embora nesse jogo os amigos tenham se negado a lhe contar que o Timbu ganhou os pontos depois no tapetão. Uma heresia.


O dia 18 de julho de 1965 quando o Íbis venceu o Santa Cruz nos Aflitos. Ou ainda, 1967. Íbis 1x0 Sport. Uma vitória suada e sofrida do pássaro preto sobre o leão.


Ele só tinha as lembranças do Íbis por companhia. Porque os dias eram todos iguais. Cinzentos. Feitos de sons e imaginação. Quando nem o Íbis resolvia, seus amigos o levavam para junto do mar. E ele ficava escutando o vai e vem das ondas no Janga. Pensando. Pensando.


Como seria esse mar tão grande? Essa água imensa que por vezes é bravio, noutras vezes tão manso que até se pode mergulhar nas suas águas e flutuar sereno. Sem medo de se afogar. Esse mar que dizem ser verde, embora verde, azul e amarelo sejam realidades tão distantes dos seus olhos cegos como um gol do Íbis.


Quando anoitecia, sentavam seu corpo no carro e o levavam pra casa. Para o quartinho apertado nos fundos onde repousavam as suas memórias. E ele ficava ouvido colado numa concha, ouvindo o barulho das ondas do mar. Concha que fazia por vezes de rádio.


Um dia o encontraram sorrindo. Deitado sereno na velha cama de campanha. Concha nas mãos.


Morreu sonhando com um gol do Íbis nas ondas que jogam na beira do mar...

17.02.08

TITIO

 

                             

 

Orlando Fantoni comandou o Timbu em 75 jogos.

Dos quais, 53 vitórias.

Acredite se quiser.

Foram 42 jogos sem conhecer derrota.

Entre 28 de agosto de 1974 e 28 de maio de 1975.

Fantoni sabia tudo de bola.

Inclusive com a bola nos pés.

Orlando era um dos quatro Fantonis que atuaram pela Lazio da Itália na década de 30.

Todos irmãos.

Todos contratados ao Palestra Itália de Belo Horizonte.

O atual Cruzeiro.

Atuaram como oriundi. Como descendentes de italianos.

Tio Fantoni comandou o Náutico em 1974 e 75.

Com sua religosidade e sua paciência com os jogadores.

Tutti buona gente.

Sei que os jogadores resolvem dentro de campo.

Mas quem tem um Fantoni no banco de reservas tem meio caminho andado.

Na foto, emoção.

Fantoni explode na conquista do título de 1974 nos Aflitos!