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Para ler ouvindo 'Mano a mano' na voz de Gardel. Com vinho tinto.
POR ROBERTO VIEIRA
“Rechiflado en mi tristeza, te evoco y veo que has sido
en mi pobre vida paria sólo una buena mujer...”
Recordo como se fosse hoje. Hotel Santa Lucía. Carlos Gardel.
Por que me sinto triste? Pela derrota? Pela lembrança de Maria?
Carlos chegou de surpresa. Desejava cantar para os jogadores argentinos que iriam jogar contra o Uruguai na final da Copa de 30 em Montevidéu. Quando chegou veio logo me cumprimentar:
“Peucelle! Peucelle! Quero dois gols, Peucelle! ’
Eu fiquei rindo comigo mesmo. No futebol nem tudo é simples como no Teatro Artigas, Gardel! A orquestra muitas vezes desafina. Muitas vezes o coro de oitenta mil vozes não escuta sua voz. Deseja apenas que você sinta medo.
O Centenário não é o Teatro Artigas, Gardel!
“Tu presencia de bacana puso calor en mi nido,
fuiste buena, consecuente, y yo sé que me has querido
como no quisiste a nadie, como no podrás querer.”
Lembro que fiquei escutando aquela música. O tango que vinha das cordas de Gardel. Quis evitar o meu pensamento, mas sabia que em algum momento Gardel iria cantar alguma coisa que me fizesse lembrar. Eu que não queria lembrar.
Será que ela me amou? Nunca saberei.
Mas la plata puso adiós em mi nido. Um dia Maria me disse adeus. De repente. Quando cheguei ao nosso lar, apenas vazio e escuridão. Um bilhete no chão do quarto. E no dia seguinte nós cruzaríamos o rio. Rumo ao Campeonato Mundial.
Eu não queria ir. Eu só queria encontrar Maria e continuar jogando no Sportivo Buenos Aires.
“Se dio el juego de remanye cuando vos, pobre percanta,
gambeteabas la pobreza en la casa de pensión.
Hoy sos toda una bacana, la vida te ríe y canta,
Ios morlacos del otario los jugás a la marchanta
como juega el gato maula con el mísero ratón.”
Bebi metade do vinho de Buenos Aires naquela noite. Acordei com uns tabefes do Juan Jose Tramutola. Abri os olhos e ele continuou me batendo. Ridículo. Eu tinha vinte e dois anos. Tramutola era o técnico da seleção argentina. E tinha vinte e sete anos. Mas, pensando bem, talvez tenha sido minha sorte. Juan também era um romântico. Era jovem. Conseguia entender meu coração apaixonado.
“Carlos, vai tomar um banho e encontra com a gente no cais. De noite a gente conversa. Maria já tem dono.”
Fiquei olhando na distância o rosto sério de Juan. Então Maria decidira pela riqueza. O quarto de pensão era muito pouco para a menina que sonhava com os palácios. Pior. Toda Buenos Aires já sabia...
“Hoy tenés el mate lleno de infelices ilusiones,
te engrupieron los otarios, las amigas y el gavión;
la milonga, entre magnates, con sus locas tentaciones,
donde triunfan y claudican milongueras pretensiones,
se te ha entrado muy adentro en tu pobre corazón.”
Gardel olhou em meus olhos e cantou ‘Mano a mano’. Dois Carlos que entendiam o que se passava no coração de um homem. La milonga com sus locas tentaciones driblaram minha vida. O time inteiro pensava em silêncio no vazio da noite uruguaia. Cada um tinha sua própria Maria. Cada um, seu próprio tango. Existe um tango para cada sofrimento humano.
Quando terminou, ele veio até mim e confidenciou baixinho.
“Ela vai estar em campo. Estou te dizendo para que não sejas surpreendido. O patrão fez questão de assistir à final. Trazendo seu prêmio no bolso. A mulher que roubou de Carlos Peucelle.”
Olhei para Gardel com os olhos de quem foi apunhalado. Não dormi. Acho que desde aquela noite, eu nunca mais consegui dormir direito.
“Nada debo agradecerte, mano a mano hemos quedado;
no me importa lo que has hecho, lo que hacés ni lo que harás...”
Entrei em campo velho. Já não era um moço de vinte e poucos anos. Em algum lugar daquele estádio descomunal uma mulher me olhava. Sorrindo. Será que ela ainda sorria? Oitenta mil vozes. Um urro ensurdecedor. Chapéus que voavam pelos ares. O Uruguai nos olhava invencível. Monti me soltou um grito. Não escutei.
Dorado abriu o marcador. Estávamos perdendo. No meio das pernas de Botasso. Um gol infame.
Será que ela torce por mim?
Varallo me toca a bola. Maria. Eu me adianto, Andrade tenta me atingir. Ela me beija em algum lugar do passado. Olho para Ballesteros, ele me olha de volta assustado. Maria sorri. Eu chuto cruzado. Maria dorme no quarto com as luzes apagadas, inverno. A bola atinge as redes do Centenário, empate. Maria sonha. O estádio silencia. Eu corro para os braços de Maria, mas meus companheiros me abraçam. Festa. Maria bebe uma taça de champanhe.
“Eu nasci para a champanhe, Carlos. Você nasceu para a calle...”
Gol.
“Los favores recibidos creo habértelos pagado
y, si alguna deuda chica sin querer se me ha olvidado,
en la cuenta del otario que tenés se la cargás.”
Mano a mano. O jogo estava mano a mano. Quando Stábile pegou a bola impedido e desempatou. O belga nem piscou. Deu gol. E foi ali que nós perdemos.
Todo triunfo é passageiro. Toda glória é vã. Como todos os amores. Todos os gols.
Agora, eram os uruguaios que se sentiam traídos. Humilhados. Nós pensamos que já éramos campeões do mundo. Que todo o segundo tempo seria apenas um longo caminho de riqueza e prazer.
Mas a sorte não sorriu mais para nós naquele domingo. Como Maria, a sorte decidiu por outros braços. A sorte é uma mulher sem dono.
“Mientras tanto, que tus triunfos, pobres triunfos pasajeros,
sean una larga fila de riquezas y placer...”
A história é antiga. Todos sabem. Perdi Maria. Perdi a final. Tentei viver no velho quarto de pensão. Mas nem eu mesmo acreditava ser isto possível. Nunca gostei de beber, mas durante um tempo eu bebia pra esquecer.
Todos imaginavam que eu bebia para esquecer os uruguaios.
Apenas meus amigos compreendiam a verdade.
Na saída do estádio eu avistei Maria. Casaco de pele. Carro de luxo. Uma bela mulher. Deviam ir para um restaurante de bacana. Esquecer a derrota com caviar.
No ano seguinte, uma surpresa. O River Plate decidiu pagar 10 mil pesos pelo meu passe. Uma fortuna. O jogador mais caro da época. O River passou a ser conhecido como ‘Millionarios’ por minha causa.
O tempo passou.
Cinco anos depois eu tornei a rever Maria. Sem sorriso. Caída embriagada na calle de um bairro sombrio. Corri até Maria e tentei falar com ela. Ela ainda abriu os olhos, porém não me reconheceu.
Quando chegamos no hospital estava morta. Aos vinte e sete anos. Já não era mais tão bela. Mas para o meu coração, ainda era Maria.
Fiz seu funeral. Sozinho. Ninguém mais apareceu no cemitério. Ficamos só nós dois na tarde fria. Não sei bem explicar. Até hoje eu imagino que ela me sorria.
Fui pra casa vazio.
Fiquei acordado no vazio.
E no dia seguinte marquei dois gols no Independiente.
Um por mim.
O outro, por Maria...
“que el bacán que te acamala tenga pesos duraderos,
que te abrás de las paradas con cafishos milongueros
y que digan los muchachos: Es una buena mujer.
Y mañana, cuando seas descolado mueble viejo
y no tengas esperanzas en tu pobre corazón,
si precisás una ayuda, si te hace falta un consejo,
acordate de este amigo que ha de jugarse el pellejo
pa'ayudarte en lo que pueda cuando llegue la ocasión.”

CARLOS PEUCELLE

criado por Roberto Vieira
16:13:19
Um livro para se ter na estante e no coração.
Um livro sobre o maior artilheiro alvirrubro de todos os tempos.
Um livro escrito por um alvirrubro que dispensa apresentações.
Um livro feito com paixão.
Desde já, um clássico da literatura esportiva brasileira.
Mais um gol de letra de Carlos Celso Cordeiro!
Quem for alvirrubro, compre!
Dois.
Guarde um e dê o outro para um amigo tricolor ou rubro negro.
Abaixo a mensagem enviada ao Blog:

"Roberto,
Já está na "Livro Rápido" com entrega prometida para a próxima semana, o livro Náutico - Grandes Goleadores: B I T A
O livro mostra, gol a gol, como Bita alcançou os 223 gols, em jogos do time principal do Náutico, e se transformou no maior goleador alvirrubro de todos os tempos.
Contem as fichas técnicas de todos os jogos em que Bita fez estes 223 gols.
Apresenta mapa resumo do gols de Bita, por ano e por competição.
Apresenta mapa das 338 partidas em que Bita defendeu as cores alvirrubras, por ano e por competição.
O livro tem 78 páginas no formato A5 e pode ser adquirido diretamente no site
www.livrorapido.com.br
O preço está entre 17 e 18 reais."

criado por Roberto Vieira
13:16:35

A Segunda Grande Guerra havia terminado no Pacífico.
Enquanto isso, no Recife, outra guerra se travava.
Náutico e América entravam em campo para disputar o título estadual.
América que vencera o campeonato de 1944.
Náutico querendo revanche.
Náutico que havia sido derrotado nas finais de 44.
Inexplicavelmente.
Antes da batalha final do dia 9 de dezembro.
Os capitães trocam flores.
Batista, o juiz, observa em silêncio.
Esta seria a segunda das três guerras entre alvirrubros e alviverdes.
A primeira em 1944.
A segunda em 1945.
A terceira em 1950.

criado por Roberto Vieira
11:52:19
JOSÉ PADILHA 
POR ROBERTO VIEIRA
PUBLICADO HOJE NO FOLHA ONLINE
A crítica e os intelectuais classificam o filme 'Tropa de Elite' como fascista. Dá vontade de rir. São as mesmas pessoas que classificam o filme 'Z' como uma obra de arte. Pois 'Tropa de Elite' ganhou o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim na votação de um júri presidido por Costa-Gavras. Gavras que é o diretor de 'Z'. Mas 'Z' é um filme que a grande maioria das pessoas absorve como um filme esquerdista. 'Z' pode. 'Tropa', não, pois 'Tropa de Elite' ganhou o epíteto de fascista. E o que é fascismo para a grande maioria dos críticos e intelectuais brasileiros que repudiam o filme? Fascismo é mostrar a violência das gangues no morro? Fascismo é mostrar na tela a corrupção na polícia brasileira? Fascismo é lembrar que quem mantém o tráfico de entorpecentes são as pessoas de alto poder aquisitivo, que se julgam acima do bem e do mal? Pessoas que se olham no espelho como fiadoras dos direitos humanos? Fascismo é mostrar um policial no papel principal? 'Tropa de Elite' seria um grande concorrente ao Oscar. Mas os críticos e intelectuais brasileiros preferiram 'O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias'. Porque não era um filme fascista. Solicitamos que, de agora em diante, pelo bem da sétima arte tupiniquim, os intelectuais brasileiros sejam mais Gavras e menos críticos.

criado por Roberto Vieira
00:22:15
POR ROBERTO VIEIRA
PUBLICADO NO GLOBO ONLINE E NO JORNAL DO COMMERCIO
Os EUA tentaram 638 maneiras diferentes para destronar Fidel. Eu falei destronar, mas podem ler matar.
Não conseguiram.
O que os EUA tentaram 638 vezes, o tempo conseguiu de primeira.
Mas é improvável que a imagem de Fidel venha a morrer. A Revolução de Cuba é um exemplo raro. Um povo que muda a sua história nas barbas do rei.
Pena que logo depois Cuba se rende a outro rei.
Talvez fosse impossível um outro roteiro. Não sei. Cuba é um país dividido. Metade ama Fidel e Che. Metade quer banir sua memória da face da Terra. O revolucionário reinou durante 49 anos. E de alguma forma ainda reina.
É curioso observar que Fidel se despede enquanto Kosovo tenta se libertar.
O Homem sempre tenta se libertar.
Talvez essa seja a grande lição da última ditadura das Américas.
As revoluções ficam velhas, mas a liberdade é sempre uma criança.

PRIMEIRA FOTO DE FIDEL APÓS A REVOLUÇÃO

criado por Roberto Vieira
23:29:38