O BLOG DO ROBERTO

Futebol e História.

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Terra Blog

Arquivo de: Março 2008, 09

09.03.08

SEU WELLINGTON E A PATATIVA

 

 

Náutico x Central. Aflitos.

Hexagonal.

Em algum lugar no começo dos anos 2000.

Wellington foi o dono do jogo.

E o Náutico nem tomou conhecimento do Central.

3 x 0!

Como resultado, coincidência.

O Timbu assumiu a liderança do hexagonal.

O goleiro do Central se chama Davi.

E Davi levou o primeiro gol marcado pelo Golias, Wellington.

No final do primeiro tempo um drible de corpo.

E Marcelinho empurrou pras redes: 2 x 0.

No segundo tempo lançamento na área 

E Wellington marcou seu segundo gol. De toquinho.

O juiz foi Cláudio Mercante.

Lúcio Surubim comentou.

Gilson Nunes ninguém sabe que fim levou.

Paulo Leme perdeu-se no mar. 

Não temos Bizu.

Mas Kuki está lá.

Detalhe. 

Wellington  saiu fugido do Ibama.

Com Wellington, patatava volta a ser espécie em extinção!

GOL DE GILSON SARAIVA

 

No texto abaixo, Lucídio recorda o encontro com Gilson Saraiva na noite de autografos de 'O Náutico, a bola e as lembranças'. 1988.

Um encontro memorável.

Que terminou em um poema que pode ser lido no post seguinte!

 

POR LUCÍDIO OLIVEIRA

 

... Chegou por fim a vez de Gílson Saraiva, o quarto-zagueiro do time de 65, tempo do Hexa, com participação também, embora em reduzido número de jogos, na jornada do ano seguinte, antes do seu afastamento definitivo dos gramados.

Carregava debaixo do braço cerca de uma dezena de exemplares do livro, motivo de sobra para me chamar a atenção.

- Para que tantos livros? - perguntei curioso. - Vai abrir uma lojinha? - arrisquei em tom de brincadeira.


Não, não ia abrir lojinha nenhuma. Nem lojinha, nem livraria. Os livros estavam sendo adquiridos para serem enviados a amigos distantes. Queria-os devidamente autografados. Destinavam-se aos ex-companheiros dos tempos memoráveis do Hexa, espalhados por vários recantos do Brasil: Joélcio, em Minas, Ivan Limeira, Mauro e Aluísio Linhares em Fortaleza, Paulo Choco no Rio... Um dos livros, a exigir uma dedicatória especial, para um amigo bem próximo, ausente por motivos profissionais, Salomão Couto. Médico, como ele; mais do que colega, um irmão. Amizade consolidada através dos interesses comuns, a medicina os aproximando - ele na condição de hematologista, com estudos na França e na Inglaterra; Salomão como neurologista, com curso de especialização na França.

Diante de Gílson - e por se tratar de um encontro raro, já que não privava de sua amizade -, a ocasião não deveria ser por mim desperdiçada. Uma homenagem de minha parte se impunha, como um gesto de gratidão. Afinal - além da sua honrosa presença, e da atenção pelos exemplares adquiridos para seus amigos distantes, todos eles personagens da história contada no livro - devia-lhe, como alvirrubro e como autor, uma boa fatia do Hexa e do próprio livro, aquele sem dúvida uma das razões da existência deste, o Hexa como inspiração maior para a edição de O Náutico - a bola e as lembranças.

Abri então o livro à página 125, no capítulo que trata da jornada invicta do Tetra (1966 - A alegria de um título inédito). E comecei a leitura, pausada, para que a emoção do momento não me fizesse perder uma só palavra:

“No mais, quanto ao elenco timbu, tinha-se a lamentar a decisão de Gílson Saraiva, o certame em pleno andamento, de não mais continuar jogando futebol profissional. O sóbrio quarto-zagueiro estava no ápice da carreira. Mas não teve dúvida em trocar de uma vez a alegria dos estádios e a bola, pelos frios corredores dos hospitais e pela hematologia. Jogou apenas as sete primeiras partidas do turno, largando o futebol de obrigação quando mais brilhava a sua estrela. Ficaram gravados na memória dos alvirrubros o seu estilo clássico e sua elegância. E, como se uma máquina fotográfica fixasse num momento, a imagem do belíssimo gol que marcou numa de suas últimas partidas, contra o Central, em Caruaru. Um gol de falta, bem próximo à meia-lua, a bola suavemente levantada, insinuante, como somente os bem dotados sabem fazer.”

Três ou quatro dias depois, recebi no meu ambiente de trabalho, sem que estivesse esperando, a amável visita de Gílson. Trazia-me duas pequenas monografias, impressas com acurado bom gosto, contendo de sua autoria, crônicas e poesias impregnadas de humanismo, uma marca de sua personalidade.

E, para minha surpresa - porque não o sabia poeta, e nem tampouco que em tempo tão breve o livro que acabara de lançar, dedicado ao Náutico, fosse distinguido com tão bela homenagem - um poema que escrevera inspirado na leitura dos capítulos referentes aos anos em que havia defendido o time do Náutico. Leitura feita na mesma noite do lançamento, a poesia jorrando espontânea a seguir, saída de dentro da alma, como me confidenciou comovido.

O poema, pelo autor intitulado '20 Anos Depois', traduz o sentimento despertado pelo inesperado retorno às tardes de gols, como o que nos brindou na sua despedida - a bola suavemente levantada com delicadeza, como somente os artistas e os poetas dos gramados são capazes de fazer:
Quero crer que, quando menino, Gílson viu jogar Danilo Alvin, o príncipe. Deve ter visto também em ação, Dequinha, Adésio, Aldemar, Mirim, Gilberto e outros poucos mais, da mesma estirpe. E, da boca dos mais velhos, soube de Fausto, a Maravilha Negra, de Martim, de Capuco, legendas de um tempo do futebol em que o center-half exibia a postura elegante de um príncipe.


A todos decerto dedicou, menino ainda, a sua atenção, sonhando um dia ser um deles. E quando afinal chegou a sua vez, fiel a seu destino, seguiu jogando como quem escreve poemas, com a mesma elegância que caracterizava o futebol feito de poesia e leveza dos seus ídolos do tempo de criança.

                      

    A foto é de 1965. Jogo Náutico 5 x 3 Sport. Quatro gols em 18 minutos. A virada de 3x1 para o 5x3 definitivo. Jornada do tricampeonato, caminho do Hexa.                          

VINTE ANOS DEPOIS

 

O poema abaixo do genial Gilson Saraiva é uma raridade no mundo do futebol.

Nas últimas décadas só me recordo do argentino Jorge Valdano como mestre da bola e das letras.

No passado, talvez Albert Camus.´

O poema abaixo é a oportunidade rara de ler a realidade do futebol pela mãos de um craque.

 

VINTE ANOS DEPOIS

POEMA DE GILSON SARAIVA

 

“Vi a bola rolar na leitura macia do livro

Voltou a sensação, voltou a ilusão

Até o suor escorreu pela testa e nos olhos marejou a visão

Ouvi o grito de gol, o trilar do apito

O aperto no peito, o sentido da vida

Me senti ídolo, me senti deus, me senti gente

Com as cores do clube, com a ginga do corpo

O corte de cabeça, uma bola de curva

A malícia do drible, uma vida no pé

Ah, como me lembro, lembro tanto

Ao reler esse acervo

Ao me ver em retrato

E tentar em memória

Reviver toda força e vigor

E sair vencedor

Bem queria de novo decerto

Eu vestir a camisa listrada

E saber se o retrato fiel

Guarda toda a vontade

Emoldura o desejo

Recrudesce a emoção

De poder esgotado, molhado, com um corte na perna

Com cansaço em expressão

Reerguer todas taças

E olhar a galera em explosão

E gritar,

Campeão!”