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Examinei o paciente abaixo agora de manhã.
Não pude deixar de lembrar do jogo de ontem em Salgueiro.

CATARATA CAUSADA POR RELÂMPAGO
POR ROBERTO VIEIRA
Quando o Náutico e o Sport entraram em campo contra o Salgueiro e o Serrano, seus jogadores não estavam apenas defendendo suas cores. Estavam defendendo um bem mais precioso.
A sua integridade física.
Futebol na chuva parece divertido. Quem nunca jogou futebol na chuva? Fica mais divertido ainda quando não se tem outra data no campeonato pra disputar a partida. Então, federações, dirigentes e juízes fazem de tudo pra não interromper o jogo.
Mas todo ano, cem pessoas morrem no Brasil vítimas de relâmpagos. Número similar ao dos Estados Unidos. A corrente elétrica pode ocasionar desde simples queimaduras, até parada cardiorrespiratória e danos ao sistema nervoso central. Principalmente, quando alguém está jogando com travas de alumínio em um campo de futebol no meio de uma tempestade.
Para os que imaginam que o fato é raro, uma imagem.
O paciente da foto foi atingido por um raio há dezessete anos. Sofreu paralisia do lado direito do corpo. Esteve internado três dias em uma UTI.
Quando teve alta, lembrava vagamente o corrido. Com o passar do tempo recobrou sua memória.
Entretanto, logo observou que já não enxergava tão bem com o olho direito.
Sua visão prosseguiu diminuindo com o tempo. Um exame com o oftalmologista revelou uma catarata.
A catarata vem a ser a lesão ocular mais comum em traumas por eletricidade. O cristalino perde sua transparência após o fluxo da corrente elétrica. O primeiro diagnóstico de uma catarata secundária a um acidente com relâmpago data de 1772, por Charles de Saint-Yves.
A Federação Pernambucana de Futebol e os seus árbitros devem olhar esta imagem, e refletir sobre os riscos aos quais estiveram expostos todos os que compareceram aos jogos em Salgueiro e Serra Talhada.
Futebol na chuva parece divertido. Mas a preocupação com o ser humano vem em primeiro lugar. Um século antes da era Cristã, o poeta latino Lucrécio já se preocupava com as condições de trabalho nas minas de Siracusa:
"não viste ou ouviste como morrem em tão pouco tempo, quando ainda tinham tanta vida pela frente?"
Um grito de gol não pode ser mais importante que a vida humana.

criado por Roberto Vieira
13:40:39
Depois do jogo interrompido pela chuva entre Náutico e Salgueiro, descobri que o inesquecível Tom Jobim sabia tudo de bola...
Há dez mil anos atrás.

Por ROBERTO VIEIRA
Adaptação do clássico de TOM JOBIM
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de jogo, é um jogo ruizinho
Juiz apita de ouvido, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o gol
Cadê cobra no campo, só tem nó da madeira
O ataque tentando, mas a poça não deixa.
É dilúvio e vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a figa, é em vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa interesseira
Das águas de março, chega dá uma canseira
É o pé, é o chão, é lama na chuteira
Resultado na mão, pedra de atiradeira
É três pontos no céu, é uma derrota no chão
É um dilúvio, é uma fonte, sertão com cachoeira
Será o fundo do poço, ou o fim do caminho
No rosto um desgosto, o juiz tá sozinho
É um raio, é um turno, é uma conta, é um conto
É um celular tocando, é a conta, é um ponto
É uma ordem, é um gesto, é a prata brilhando
Não tem luz da manha, é o trovão chegando
É a resenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o timbu na estrada
É o projeto da taça, é o sonho que engana
É o turno enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é o carcará , uma rã
É um resto de esperança na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de sobrevida no teu coração
Era uma cobra, um leão, hoje é relâmpago, trovão,
É um apito na mão, é um ordem de pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de brisa no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um árbitro sozinho
É um passo, é uma ponte, é tribunal amanhã.


criado por Roberto Vieira
23:51:17