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Terra Blog

Arquivo de: Abril 2008, 07

06.04.08

AVENIDA ROSA E SILVA, 107 (PARTE 1)

 

                         1897

 

AVENIDA ROSA E SILVA, 107

Por ROBERTO VIEIRA


O Clube Náutico Capibaribe completa hoje 107 anos de glórias. Falar sobre o Hexacampeão pernambucano é falar sobre um século de intensas transformações políticas e culturais na região, no país, na humanidade. Quando o Náutico foi fundado, a Rainha Vitória ainda reinava sobre metade da Terra, os antibióticos não eram sequer sonhados e as mulheres não podiam votar.

Recife dormia em silêncio. Os bondes percorriam suas ruas.

Por obra e graça do destino, o Clube Náutico Capibaribe colecionou entre os seus aficcionados, personagens como Givanildo Alves, Lucídio José de Oliveira, Carlos Celso Cordeiro, Lenivaldo Aragão, Lula Carlos e Gustavo Krause, entre outros. A fina flor da literatura esportiva em nosso estado.

Cada um escreveu belas e memoráveis páginas sobre o Timbu.

Portanto, no dia em que o Clube Náutico Capibaribe completa 107 anos de glórias, nada mais justo que passar a palavra desta vez ao aniversariante. Testemunha oficial da sua própria história.

Sem mais delongas, com vocês, o Timbu.



"Nasci. Era dia de festa em Recife. Um domingo, 21 de novembro de 1897. Mas não me chamava Náutico. O Náutico veio depois.

Uma regata estava sendo promovida pelo Club Sportivo Pernambucano em homenagem ao General Arthur Oscar. Lembranças de Canudos. Ainda lembro do João Alfarra andando preocupado pela Rua do Sol. Ele era o timoneiro do nosso barco. Um barco chamado Temerário. Atrás dele, contando piadas em fila indiana, a tripulação: Antonio Phito Filho, Adolpho Heyman, Bento Magalhães Filho, Hermann Ledbour, Antonio Castro e João Dreyer.

Sinto dizer, mas as nossas cores eram azul e branco. Vermelho e branco era o barco Helena, do Eugênio Adour. A largada da regata foi na frente do Instituto Archeológico. O governador e o general estiveram presentes. Nós fomos um sucesso. Durante meses a cidade não falou de outra coisa. Eu já existia, mas nome que é bom, nada! Alguns me chamavam de Clube dos Pimpões, outros de Recreio Fluvial. Mas, carinhosamente, eu já era o Náutico...

  

AVENIDA ROSA E SILVA, 107 (PARTE 2)

 

                    

 

... João me viu triste e conversou com o pessoal. Eu precisava me batizar como um bom cristão.

Fui pego de surpresa.

O domingo 7 de abril de 1901 parecia um domingo como outro qualquer. O Dr. Otávio de Freitas anunciava nos jornais seu novo consultório na Rua do Hospício, número 3. Eu fui levado à Companhia Pernambucana de Navegação pensando em viajar no paquete Jacuhype que fazia viagens pelos portos do Norte. Mas, no primeiro andar da empresa, surpresa!

João Alfarra, Antônio Dias Ferreira, Piragibe Haghissé e outros amigos assinaram meu batismo. A ata de fundação do clube também definia o vermelho e o branco como minhas cores de luta. Azul só a âncora. Foi quando eu passei a ter festa de aniversário...

 

AVENIDA ROSA E SILVA, 107 (PARTE 3)

 

                         NOTÍCIA DOS 25 ANOS

 

... Minha vida era o rio. O rio vivia em meu nome. Não era esse rio poluído de hoje em dia. Era um rio com peixe, com regata, com provas de natação. Porém, um dia chegou novidade no Capibaribe. Uma bola de futebol. No início, desdenhei o novo brinquedo. Só que aos poucos ela foi me conquistando.

Ora, vejam só meus amigos, ironia do destino!

Fui desafiado para um duelo contra os rubro negros no British Club. Eles já jogavam bola havia algum tempo. Eu, não. Aproveitei pra dar uns treinos no Derby.

25 de julho de 1909. Campo do British Club. O primeiro jogo de bola dos antigos navegantes. Como esquecer Maunsell e Thomas? Não posso conter meu riso. Contra todos os prognósticos, venci logo na estréia o Sport por 3 x 1.

Gols de saudade. Gols de football.

Mas eu não vivia em Rosa e Silva. Continuava com meus olhos apaixonados no Capibaribe. Nossa sede social era na Rua da Aurora, número 111. Lá eu aprendi a dançar. Lembro como se fosse hoje, meus 25 anos.

7 de abril de 1926. Todos os barcos do clube participaram da parada náutica no Capibaribe defronte da sede. A Rádio Club transmitiu um programa musical em minha homenagem. Teve um discurso do Sebastião Lins que eu trago de cor. Teve até o Hino de Pernambuco com a Orquestra da Rádio Clube. Pernambuco que mora no meu coração, imortal...

 

 

AVENIDA ROSA E SILVA, 107 (PARTE 4)

 

                   

 

... Pra falar a verdade, minha alma era boêmia, apaixonada. Um dia, decidiram lançar-me uma ofensa. Chamaram a mim e a meus companheiros de ‘timbus’. O tiro saiu pela culatra. A ofensa transformou-se um nosso novo nome de guerra. Timbu também gosta de água, meu amigo. É um bicho náutico por excelência. Embora seja de água que passarinho não bebe.

Já sei. Você vai me perguntar por Fernando, Arthur, Zezé e Emygdio? Ainda os vejo. Já não comento mais sobre o assunto porque muita gente não acredita. Eu vi os quatro pintando miséria na Jaqueira e na Malaquias. Eles foram muito sutis. Deixaram pra ser campeões no dia em que completei 34 anos. Em 1935. Ninguém podia com aqueles meninos.

Depois do jogo eles foram dançar no baile aqui na sede...

 

AVENIDA ROSA E SILVA, 107 (PARTE 5)

 

                   

 

... Sede que pegou fogo, de repente. Com certeza o momento mais triste da minha vida. Foi quando o Eládio pegou no meu ombro e me mandou acreditar no impossível. O Eládio fazia milagres aqui dentro. Botou na cabeça construir o palacete da Rosa e Silva, e conseguiu. Cismou de me fazer temido e respeitado em todo o Brasil. E cumpriu a promessa.

Tudo isso enquanto eu batia um tênis com o Reinaldo de Oliveira. Ele queria que eu seguisse a carreira artística, mas eu já era famoso. Declinei do convite.

Na idade em que a maioria das pessoas está se aposentando, eu estava construindo o parque aquático Bento Magalhães. Ou você acha que eu ia esquecer um dos membros daquela primeira tripulação? Até o João Havelange veio ver quando ficou pronto.

E veio o Gena. Veio o Ivan e o Salomão. Veio o Lula Monstrinho. Nino, Lala, Rato, Duque.

Bita... Quanta saudade eu sinto do Bita! Bita que guardava meu nome com tiros de rifle.

Onde estão o Clóvis, o Saraiva, o Paraguaio, o Mendonça? Parece que todos que se foram pela Rua da Angustura me deixando os Aflitos. A pelota tocada por Ramos dorme nas redes implacáveis da história. É a única tristeza de ser eterno. As lembranças muitas vezes nos fazem chorar...