O BLOG DO ROBERTO

Futebol e História.

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Arquivo de: Abril 2008, 12

12.04.08

RÉQUIEM DE UM CLÁSSICO

 

             

                       1968, SANTA CRUZ 1 X 0 AMÉRICA

POR ROBERTO VIEIRA

 

O aniversário do América no dia de hoje merece algumas palavras. Pois passado e presente se confundem. E quem não conhece o passado, não tem futuro.

Durante muitos anos o Recife aguardava com expectativa o saudoso Clássico da Amizade: Santa Cruz e América. Alguns até o saudavam como o Clássico das Emoções. Porém o tempo e seguidas más administrações, reduziram a amizade e as emoções ao passado remoto .

Ano passado, duas notícias quase concomitantes, chamaram atenção dos aficcionados pelo futebol.

O tricolor do Arruda perdeu o terreno de sua antiga sede social na Estrada de Beberibe: Dívidas trabalhistas.

O América pretendia vender a sua antiga sede na Estrada do Arraial , a qual já funciona com uma instituição de ensino.

Mas como tão grandes clubes, clubes que levaram multidões aos estádios , que colecionaram títulos, como estes clubes podem chegar a este ponto?

O futebol não é para principiantes.

Jogo que mobiliza as paixões dos seus dirigentes e torcedores, lembra muito mais o pôquer e as corridas de cavalo que um esporte. É só checar os escândalos de corrupção dos poderosos Milan e Juventus da Itália. No futebol quase tudo é permitido em busca da vitória, e a derrota, embora por vezes coberta de glória, conduz inevitavelmente ao ostracismo.

O América, que não almeja sequer a segunda divisão do futebol pernambucano , já começou grande. Dominou os anos 10 e 20 juntamente com o Sport, foi o verdadeiro campeão do centenário e, já no ano de 1923, excursionava para fora do estado. Quando conquistou seu último título em 1944 , em jogos que ocorreram em fevereiro de 1945, o América o fez de forma memorável se impondo de maneira inesperada ao Náutico.

Milhares de torcedores seguiram em festa da Ilha do Retiro até ao bar Savoy carregando os campeões. Nos anos seguintes uma série de vice-campeonatos cruzou o seu caminho, e nem mesmo a presença de Leça na sua meta e de Rubens Moreira na presidencia da FPF, impediram a sua queda .

O Santa Cruz é um patrimonio nacional. Ao lado do Vasco da Gama, que em 1923 cometeu a ousadia de se sagrar campeão carioca com um time de trabalhadores oriundos das classes mais baixas da população, o tricolor trouxe para o antigo esporte bretão o povo. Sem o Santa Cruz , o Vasco e outras agremiações, o mais brasileiros dos desportos permaneceria tal qual o golf : Elitista.

O Santa Cruz só veio a conquistar seu primeiro título em 1931. Seguiu-se o primeiro tri-campeonato. Seguiu-se o genio de Tará. E logo depois o campeonato Pernambuco-Bahia de 1956 numa épica rodada final contra o Vitória, o primeiro supercampeonato em 1957, o penta em 1973 e o Tri-super em 1983 .

Mas eu não escrevo estas linhas pensando nos títulos conquistados ou perdidos. Eu as escrevo lembrando na saga da construção do Estádio José do Rêgo Maciel. O Santa Cruz treinava no campinho do Arruda, mas levava seus jogos na Ilha ou nos Aflitos. Pela obstinação de Aristófanes de Andrade e de José do Rêgo Maciel, o terreno tornou-se definitivamente tricolor .

Em 1956 foi lançado o utópico projeto de construção do seu estádio. Ninguém acreditava . Os jornais da época mencionavam até uma taxa para construção de um Estádio Municipal (já vi este filme antes), mas desconfiavam que o Mundão do Arruda era pura balela. Inicialmente construido em madeira, chamado de alçapão pelos adversários, o Santa Cruz mobilizou a partir de 1965 os seus torcedores na construção de um dos maiores estádios particulares do mundo. E foram seus torcedores que realmente construiram o estádio, levando cimento, pedras, suor, como uma imensa pirâmide do Novo Mundo .

Claro que com uma ajuda política, que ninguém é de ferro.

Entretanto, é neste ponto que o sonho e o amor por um clube necessitam de alicerces sólidos. Não é possível imaginar nos dias de hoje um clube ou uma empresa onde se desconheçam livros-caixas.

Não se trata de administração informatizada, não. Serve o velho e bom livro-caixa mesmo. Limpeza do estádio, preservação do patrimônio, cadeiras confortáveis, arquibancadas numeradas, propaganda, salários em dia, restaurante na sede, piscinas em funcionamento, loja de artigos esportivos, proibição da entrada no estádio de penetras, funcionários satisfeitos e bem treinados, divisões de base com olheiros, preparadores físicos, médicos e psicólogos.

Isso não é o máximo. É o mínimo !

Sei que as dívidas são imensas. Sei que até mesmo um boleto bancário não pode ser impresso. Sei que muitos jogadores se recusam a jogar no Santa Cruz. Sei que os torcedores xingam e tencionam agredir os jogadores e o técnico. Porém os tempos heróicos já se foram. Há alguns anos o futebol deve ser gerido como um negócio. Quando isso não ocorre a decadência se instala. Portanto não importa se um time vai parar na terceira divisão ou não. Se ele começa a raciocinar em termos de uma boa e sólida administração, ele sobreviverá.

Caso contrário seu destino é tornar-se um projeto imobiliário.

Um clube como o Santa Cruz , o Náutico , o Sport , e como foi o América, não se inventa. Ele nasce de um sonho e cresce na paixão. E o sonho e a paixão não se encontram à venda, porém muitas vezes se desvanecem com o tempo.

Apesar de alvirrubro, mas em nome da amizade do antigo clássico Santa Cruz e América, América que deveria estar comemorando 94 anos com uma grande festa, fica o registro.

Tricolores, cuidado com a vaidade. Esqueçam as brigas. Pensem no clube.

Porque agora, já tem série D!

 

PS: 12 de abril de 1914.

Começa a história do América de Recife.

América que se chamava João de Barros Futebol Clube.

Atualmente, o América é uma casa esquecida na Estrada do Arraial.

Verde, perdida, cursinho.

O América só se tornou América em 1915.

Por obra e graça de Belfort Duarte.


NAUTICONET, 10 ANOS

 

                       

 

Ontem fui convidado para a festa dos 10 anos da Nauticonet.

Uma honra.

Nestes dez anos, a Nauticonet fez história.

Começou quando o Náutico estava de joelhos. 1998.

Assistiu o desastre de 1999 e 2000.

Comemorou a redenção em 2001.

O Bi em 2002. A épica vitória de 2004.

A tragédia de 2005.

A subida em 2006.

A saga em 2007.

Hoje é tudo festa.

Mas no começo, eram trevas.

Longa vida Nauticonet!

Longa vida ao Náutico!

E muito obrigado pelo diploma.

Está guardado a seis chaves.

Chaves do Hexa.

Aos poucos vou colocando fotos da festa.

Aguardem...

UMA CASA NA ESTRADA DO ARRAIAL

 

                 

 

Os motivos foram inúmeros.

Acometem muitos clubes no Brasil.

Um clube nasce, ganha títulos, e vai aos poucos perdendo a força.

A torcida.

Até ficar presente na memória.

Ou numa casa, na Estrada do Arraial.

Casa que deveria ser tombada como patrimônio do esporte pernambucano.

Mas um dia vem os home.

E transformam tudo num empreendimento imobiliário.

Ficam as fotos.

E alguém que passa na rua dizendo aos netos:

"Ali onde agora está, este edifício novo, era um palacete branco e verde!"