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29.09.07

O DIA DE HOJE: SÁNDOR

 

                     

 

Hoje 30 de setembro seria o aniversário de Sándor Kocsis.

Em 2006 este meu conto sobre os últimos momentos do artilheiro húngaro foi escolhido para publicação no Estado de S. Paulo.

Que Sándor tenha encontrado a paz.


'SÁNDOR'
POR ROBERTO VIEIRA

“Meus olhos percorrem o velho estádio de Berna. Lama, traves e os malditos alemães fizeram de minha vida um inferno. Por mais que lutássemos sempre havia um pé, um desvio, um grito de guerra nos nossos ouvidos. Aquele não era um jogo qualquer, era a única revanche possível para aqueles ex-soldados perdidos na imensidão de sua Germânia arruinada. Após muitos dias tomei coragem e olhei para um monte de fotografias que Gustav Sebes guardava em sua casa. Pobre velho, perder aquele jogo fez todos esquecerem os anos de vitórias. Bem, naquelas fotos eu pude observar Grosics tentando socar a bola no cruzamento do segundo gol e sendo impedido por Morlock. Falta clara. E daí. As bolas continuam entrando na minha memória, elas continuarão sempre. Só queria poder dormir finalmente, só queria nunca ter pisado em Berna naquele dia de tempestade. Nem anos depois.
Budapeste e suas ruas onde eu corria atrás de uma bola.
Barcelona e esta janela no sétimo andar.
Berna e as lágrimas no velho Estádio Wankdorf.
Primeiro os malditos alemães. Depois os malditos portugueses.
Agora este maldito câncer que doma meus movimentos, que me impede de cabecear minhas bolas imaginárias.
Agora todos os meus dias são dias de Berna. Chuvosos, malditos, dias em que as bolas teimam em chocar-se contra as traves. Dias de chão.
As pessoas me visitam e lembram minhas glórias, minhas vitórias, minhas fotos com o Major. Enquanto isso eu escuto minhas lembranças no escuro da madrugada, as bolas que Czibor e Toth me cruzam, as bolas que teimam em não entrar. Gustav perplexo no trem que nos levava de volta para Budapeste. Os militares trancando Grosics na cadeia por crime de traição. Ah, se todos os goleiros após uma derrota fossem presos !
Por vezes caminho até a janela. Olho as pessoas que passam na rua. Olho a liberdade de poder ir e vir, ou quem sabe a liberdade de poder dormir sem pesadelos. Muitas vezes gostaria de ser apenas um daqueles húngaros vendedores de salsicha, ou um militar cego e autoritário dando sua vida pela pátria. Muitas vezes acho que deveria me preocupar mais com a doença entrincheirada em meu corpo, ao invés de sonhar com gols que nunca fiz. Mas dizem que todo jogador possui uma alma de criança.
A minha alma ainda respira por ser um pássaro, por um último vôo, um vôo sem traves, sem goleiros, sem defesas, sem derrotas. Um vôo definitivo. Um vôo ultrapassando as redes de Wankdorf, ultrapassando as águas do Danúbio, os zagueiros da guerra fria, as celas da prisão, as armas dos tanques, as lágrimas de meus amigos, o exílio, a terra manchada de sangue, um vôo sobre o Nep Stadium, sobre o Camp Nou, sobre este mundo que nos dá tudo e nos nega tudo. Um vôo sobre a madrugada fria.
Um vôo pleno terminando numa derradeira e fulminante cabeçada no destino...”

Diário de Sándor Kocsis, artilheiro húngaro da Copa de 54, pouco antes de cometer suicídio

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