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O futebol tem dessas coisas. Quando tudo em volta é matemático, eis que ele ressurge mágico. No meio da semana, numa rodada pré-carnavalesca. Uma rodada feita de gols, como todas as outras rodadas desde que o mundo é mundo. Mas com todo mundo pensando em frevo, em galo, em madrugadas.
No entanto, eis que o momento maior da rodada estava reservado para o final da partida Náutico x Serrano. O gol do maior ídolo do futebol estadual deste século. O último gol de Kuki.
Alguém dirá que decerto não foi o último. E não foi mesmo. Mas de hoje em diante, todo gol de Kuki deve ser tratado como uma dádiva. Uma vitória contra o inevitável adeus.
Não foi um gol antológico. Foi apenas lógico.
Porém, só o fato de ser um gol de Kuki já transforma o gol em história. Pois foi um gol com aquele sabor das coisas que foram. Coisas que talvez não venham a ser novamente. Como vocês sabem, o tempo é ingrato com as chuteiras. O tempo é rápido, veloz. Como eram velozes as arrancadas dos grandes centroavantes nos gramados irregulares de Pernambuco.
Eram.
Regular só o tempo. Imutável. Por isso quando Kuki balançou as redes do Serrano na noite de quarta-feira, o tempo parou por um instante. Quântico. Reverente. Ao homem que por três vezes foi campeão pernambucano. Três vezes artilheiro desta terra.
Um dia quando os novos Lucídios, Celsos e Givanildos contarem a história do nosso tempo e dos nossos gols, lá estará gravado o nome deste baixinho invocado. Alma e motor do Náutico fênix. O Náutico que se recusou a ser passado. Náutico que ainda faz sonhar quem ama este louco destino de fazer as redes balançarem infinitamente neste jogo que jogamos contra o tempo.
Jogo que só vencemos quando gritamos gol!
Quando resistimos ao destino embriogênico de esquecer.
criado por Roberto Vieira
23:12:29